CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de janeiro de 2026
Publicado em 23/01/2026 às 3:25

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Sente-se.
Puxe a cadeira, ajeite a coluna, sirva o café — forte, porque as notícias não vêm descafeinadas.
Eu, Professor Antonio Glauber, após ler atentamente o noticiário do dia, venho abrir esta crônica como quem abre a janela numa manhã abafada: o vento entra, mas traz poeira junto. Ainda assim, é preciso respirar.

Vamos às notícias. Ou melhor: vamos ao espetáculo.


A primeira cena se passa em Santo Amaro das Brotas, onde a prefeitura resolveu brincar de dança das cadeiras — só que sem música e com portas batendo. Cargos comissionados foram exonerados como folhas secas varridas por um vento chamado FPM retido. O Fundo de Participação dos Municípios, esse parente distante que manda dinheiro quando quer, resolveu atrasar o abraço. Resultado? O prefeito anunciou o corte como quem anuncia chuva em dia de sol: sem alegria, mas com resignação.

Os cargos caíram um a um, feito dominós cansados. Canetas perderam tinta, salas perderam vozes, e os corredores ficaram mais silenciosos, como se o prédio suspirasse. A dívida com a Receita Federal virou um fantasma contábil puxando os pés no chão da prefeitura. A política, nessa hora, deixa de ser discurso e vira planilha. E planilha, meu amigo, não tem piedade — só células frias e números que piscam como olhos acusadores.


Corta para o segundo ato:
O Will Bank — aquele banco digital que prometia inclusão financeira, abraço virtual e senha sem humilhação — teve o coração desligado pelo Banco Central. Liquidação extrajudicial. Nome bonito para um velório sem flores. Um banco criado para os invisíveis acabou invisível também, evaporado nos códigos do sistema financeiro.

O Will nasceu com discurso social, linguagem acessível, promessa de futuro. Falava com gente que sempre ouviu “volte amanhã” no balcão dos bancos tradicionais. Mas o sistema, esse gigante de terno e gravata, tem pouca paciência com fragilidades. Quando o Banco Master caiu, o Will ficou de joelhos, respirando por aparelhos no tal do RAET, até que a tomada foi puxada da parede.

E lá se foi mais um sonho digital, como castelo de areia diante da maré dos juros altos. Os clientes ficaram com a sensação de quem acorda e percebe que o chão virou nuvem. Inclusão financeira, no Brasil, às vezes parece convite para uma festa onde a porta fecha cedo demais.


Enquanto isso, do outro lado do planeta, Donald Trump resolveu brincar de xadrez geopolítico com peças de gelo. Primeiro ameaçou tarifas contra países europeus — um porrete econômico de 10% — tudo por causa da Groenlândia, esse imenso cubo de gelo que virou objeto de desejo imperial. Depois, como bom personagem de si mesmo, recuou. Trump é assim: ameaça como trovão, mas às vezes entrega só o barulho.

A Groenlândia, coitada, virou metáfora de território cobiçado, como se fosse um terreno à venda com placa invisível: “Interesses globais passam por aqui”. Tarifas sobem, tarifas descem, e o mundo segue dançando conforme o humor do líder de ocasião. A diplomacia internacional, nesses dias, parece novela com capítulos escritos em caixa alta.


E quando achávamos que o noticiário já tinha cumprido sua cota de ironia, surge o acordo União Europeia–Mercosul, congelado como peixe no freezer institucional. O Parlamento Europeu decidiu enviar o tratado para revisão judicial. Placar apertado, tensão no ar, agricultores preocupados, discursos sobre sustentabilidade ecoando nos corredores de Bruxelas.

O acordo, que prometia pontes comerciais, virou ponte interditada. Pode atrasar dois anos. Dois anos! Tempo suficiente para plantar, colher, derrubar, replantar e ainda discutir tudo de novo. O Mercosul ficou esperando, com a mala pronta na sala, enquanto a Europa pede “só mais um minuto”. A economia global, mais uma vez, prova que anda de muletas jurídicas.


E assim, entre exonerações municipais, bancos que fecham, presidentes que recuam e tratados que congelam, o dia 21 de janeiro de 2026 se revela como um espelho trincado do nosso tempo. Tudo funciona, mas nada encaixa. Tudo anda, mas tropeça.

O Brasil municipal sofre com a falta de recursos. O cidadão simples perde o banco que o acolhia. O mundo poderoso brinca de tarifas. E os grandes acordos internacionais caminham a passos de tartaruga jurídica.

Respire fundo.
Levante da cadeira.
As notícias acabam, mas a vida continua — com humor como escudo, ironia como lente e a esperança, teimosa, insistindo em não pedir exoneração.

Porque, no fim das contas, ainda estamos aqui. Observando. Pensando. Escrevendo.
E enquanto houver palavra, haverá crítica.
Enquanto houver crítica, haverá resistência.