CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 20 amanheceu com cheiro de papel carimbado e faísca elétrica no ar. O sol saiu tímido, como quem desconfia do noticiário, e as manchetes, essas senhoras espalhafatosas, desfilaram na passarela da realidade com vestidos de ironia, saltos de hipérbole e maquiagem de sarcasmo. Sente-se, caro leitor e cara leitora. Respire. O mundo hoje fala alto — e tropeça nas próprias palavras.
Primeiro ato: o Tribunal de Contas entra em cena com toga de maestro e batuta de prudência. Suspende a seleção da organização social que cuidaria dos hospitais municipais de Aracaju. Suspende — verbo elástico, que estica o tempo e encolhe a pressa. A denúncia aponta possíveis ilegalidades num edital que sonhava alto: mais de R$ 170 milhões por ano. Um número que não anda; desfila. Um valor que não fala; grita. O dinheiro, personificado, fazia planos: queria ser curativo, soro, plantão, UTI; mas foi pego antes de virar novela mexicana, com capítulos longos e finais inconclusos. O TCE puxou o freio de mão da realidade e disse: “Calma. Hospital não é pista de corrida. Saúde não é roleta.” E o silêncio que se seguiu foi o silêncio de quem percebeu que o bisturi da fiscalização corta antes da infecção.
Segundo ato: o Congresso brinca de Lego com diplomas. Surgem projetos para criar a chamada “OAB da Medicina”. A ideia promete filtro, prova, régua e esquadro. Mas o tema emperra, engasga, trava no meio da garganta do plenário. Enquanto isso, o INEP aparece com a prancheta da verdade: 30% dos cursos mal avaliados, notas 1 e 2 — aquelas que reprovam até o otimismo. A educação médica, coitada, anda de jaleco amarrotado, com estetoscópio cansado e prova na mão pedindo socorro. A metáfora é simples: formamos médicos como quem imprime panfletos — rápido, barato e sem revisar o texto. Depois, estranhamos quando a consulta dura três minutos e o diagnóstico vem com erro de português. A “OAB da Medicina” tenta nascer, mas o parto é difícil; falta anestesia política e sobra interesse corporativo. O paciente — a sociedade — aguarda na sala de espera, lendo revistas antigas e torcendo para não ser chamado pelo nome errado.
Terceiro ato: o Air Force One resolve filosofar. No meio do céu, o avião presidencial dos Estados Unidos sofre um problema elétrico e retorna à base. Volta. Retornar é verbo humilde, coisa rara em tempos de discursos inflados. O presidente estava a caminho de Davos, aquele Olimpo dos poderosos onde as palavras “sustentável” e “inclusão” vestem ternos caros. Mas a aeronave, cansada de tanta pompa, piscou as luzes e disse: “Hoje, não.” A eletricidade falhou como quem lembra ao mundo que até a maior potência depende de fio, tomada e bom senso. O céu, cúmplice, abriu um sorriso irônico: ninguém é imune ao curto-circuito da realidade — nem o avião mais vigiado do planeta.
E assim o dia segue, com ritmo de samba torto e pausa de suspiro. O dinheiro aprende a esperar, os diplomas pedem revisão, e o poder volta para casa por falta de energia. No fundo, as notícias cochicham uma mesma lição: quando a fiscalização pisa firme, a pressa tropeça; quando a formação falha, o futuro adoece; quando a vaidade voa alto demais, a técnica puxa para o chão.
Que amanhã a gente acorde com menos faísca e mais luz — não a elétrica que cai, mas a ética que fica. E que o noticiário, cansado de gritar, aprenda a falar baixo, com clareza, para que a realidade — essa senhora exigente — finalmente escute.




