CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de janeiro de 2026
Publicado em 21/01/2026 às 2:37

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 20 amanheceu com cheiro de papel carimbado e faísca elétrica no ar. O sol saiu tímido, como quem desconfia do noticiário, e as manchetes, essas senhoras espalhafatosas, desfilaram na passarela da realidade com vestidos de ironia, saltos de hipérbole e maquiagem de sarcasmo. Sente-se, caro leitor e cara leitora. Respire. O mundo hoje fala alto — e tropeça nas próprias palavras.

Primeiro ato: o Tribunal de Contas entra em cena com toga de maestro e batuta de prudência. Suspende a seleção da organização social que cuidaria dos hospitais municipais de Aracaju. Suspende — verbo elástico, que estica o tempo e encolhe a pressa. A denúncia aponta possíveis ilegalidades num edital que sonhava alto: mais de R$ 170 milhões por ano. Um número que não anda; desfila. Um valor que não fala; grita. O dinheiro, personificado, fazia planos: queria ser curativo, soro, plantão, UTI; mas foi pego antes de virar novela mexicana, com capítulos longos e finais inconclusos. O TCE puxou o freio de mão da realidade e disse: “Calma. Hospital não é pista de corrida. Saúde não é roleta.” E o silêncio que se seguiu foi o silêncio de quem percebeu que o bisturi da fiscalização corta antes da infecção.

Segundo ato: o Congresso brinca de Lego com diplomas. Surgem projetos para criar a chamada “OAB da Medicina”. A ideia promete filtro, prova, régua e esquadro. Mas o tema emperra, engasga, trava no meio da garganta do plenário. Enquanto isso, o INEP aparece com a prancheta da verdade: 30% dos cursos mal avaliados, notas 1 e 2 — aquelas que reprovam até o otimismo. A educação médica, coitada, anda de jaleco amarrotado, com estetoscópio cansado e prova na mão pedindo socorro. A metáfora é simples: formamos médicos como quem imprime panfletos — rápido, barato e sem revisar o texto. Depois, estranhamos quando a consulta dura três minutos e o diagnóstico vem com erro de português. A “OAB da Medicina” tenta nascer, mas o parto é difícil; falta anestesia política e sobra interesse corporativo. O paciente — a sociedade — aguarda na sala de espera, lendo revistas antigas e torcendo para não ser chamado pelo nome errado.

Terceiro ato: o Air Force One resolve filosofar. No meio do céu, o avião presidencial dos Estados Unidos sofre um problema elétrico e retorna à base. Volta. Retornar é verbo humilde, coisa rara em tempos de discursos inflados. O presidente estava a caminho de Davos, aquele Olimpo dos poderosos onde as palavras “sustentável” e “inclusão” vestem ternos caros. Mas a aeronave, cansada de tanta pompa, piscou as luzes e disse: “Hoje, não.” A eletricidade falhou como quem lembra ao mundo que até a maior potência depende de fio, tomada e bom senso. O céu, cúmplice, abriu um sorriso irônico: ninguém é imune ao curto-circuito da realidade — nem o avião mais vigiado do planeta.

E assim o dia segue, com ritmo de samba torto e pausa de suspiro. O dinheiro aprende a esperar, os diplomas pedem revisão, e o poder volta para casa por falta de energia. No fundo, as notícias cochicham uma mesma lição: quando a fiscalização pisa firme, a pressa tropeça; quando a formação falha, o futuro adoece; quando a vaidade voa alto demais, a técnica puxa para o chão.

Que amanhã a gente acorde com menos faísca e mais luz — não a elétrica que cai, mas a ética que fica. E que o noticiário, cansado de gritar, aprenda a falar baixo, com clareza, para que a realidade — essa senhora exigente — finalmente escute.