CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 17 de janeiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 17 de janeiro de 2026
Publicado em 19/01/2026 às 0:19

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 17 amanheceu com zumbido. Não foi despertador, não foi pensamento atrasado: foi a realidade batendo asas, dessas que não pedem licença. Em Aracaju, no Bairro Coroa do Meio, a manhã virou colmeia desgovernada. Abelhas — operárias do caos momentâneo — decidiram protestar sem cartaz, sem sindicato, sem pauta escrita. Atacaram como quem cobra juros do atraso humano. O vídeo circulou: gente correndo, braços em coreografia improvisada, o ar cortado por gritos e ferroadas. A cidade, acostumada a buzinas e maresia, provou o gosto metálico do susto. As abelhas, pequenas professoras aladas, deram aula prática: quando a natureza se cansa, ela não manda ofício — ela ferroa.

Enquanto isso, o mundo grande — esse palco de terno engomado e microfone nervoso — resolveu brincar de diplomacia com sotaque de épico. Donald Trump convidou Lula para um “Conselho de Paz” voltado à reconstrução e à governança temporária da Faixa de Gaza. O convite veio com perfume de solenidade e gosto agridoce de ironia histórica. Paz, essa senhora de passos lentos, foi chamada para dançar num salão cheio de estilhaços. É bonito no papel — papel aceita tudo, até promessa em letra cursiva. O difícil é fazer a palavra “reconstrução” aprender a caminhar sem tropeçar em escombros, sem sangrar nos cantos.

No mesmo dia, o planeta resolveu assinar papéis como quem assina um pacto com o futuro. Mercosul e União Europeia apertaram as mãos em Assunção e disseram “livre comércio” com voz de cerimônia. Os flashes sorriram, as canetas posaram para a foto, e o acordo seguiu para a fila da realidade — essa repartição pública onde tudo precisa de carimbo, Parlamento Europeu, Congresso brasileiro, paciência. O livre comércio prometeu abrir portas; resta saber se as chaves não ficarão com os mesmos de sempre, enquanto a maioria bate palmas do lado de fora, ouvindo o eco.

Entre a ferroada e o aperto de mão, o dia ensinou sua lição de contraste. Abelhas lembraram que a cidade não é dona do céu. Presidentes lembraram que a paz não se decreta — se constrói com cal e ética. Blocos econômicos lembraram que o mundo negocia até o fôlego, mas cobra juros da pressa. E nós, espectadores com os sentidos à flor da pele, seguimos aprendendo a ler os sinais: quando a colmeia se agita, quando o palanque promete, quando o contrato sorri.

O 17 de janeiro fechou o expediente com esse recado escrito em pólen e tinta: ou ouvimos o zumbido do tempo, ou ele nos ensina à força. Porque a história, como as abelhas, pode ser pequena no corpo — mas é grande no impacto.