CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 16 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
As notícias de hoje acordaram com sede, barulho de metal retorcido e um sotaque internacional carregado de interesses. O dia 16 de janeiro amanheceu como um copo d’água trincado: a gente tenta beber esperança, mas o líquido escorre pelos dedos da realidade.
No Sertão, a água decidiu tirar férias sem aviso prévio. A adutora rompeu-se em Porto da Folha como quem solta um suspiro cansado — e o suspiro virou silêncio nas torneiras. Nove municípios ficaram com a boca seca, esperando que a água, essa senhora temperamental, resolvesse voltar. As cidades, alinhadas como gente em fila de hospital, pediam um gole de dignidade. A água, quando some, vira poesia áspera: ensina que desenvolvimento sem cuidado é miragem no asfalto quente. A torneira virou filósofa — fechada, ela pensa; aberta, ela promete. Hoje, prometeu pouco.
Enquanto isso, em Aracaju, o asfalto virou palco de tragédia. Um adolescente ao volante — esse verbo mal conjugado — cruzou a frase errada da vida e bateu de frente com uma van escolar. O ferro abraçou o ferro, rangendo como dentes nervosos. O motorista ficou preso às ferragens, e o tempo, esse carrasco sem relógio, demorou a passar. Hospital, cirurgia, respiração contada em sílabas curtas. A pressa juvenil, quando dirige, costuma atropelar o futuro. A cidade sentiu o impacto no peito.
Do lado de fora do mapa doméstico, o mundo vestiu terno e gravata de minério. A Europa olhou para o Brasil como quem olha um cofre com senha ambiental: terras raras, matérias-primas críticas, promessas de parceria. Discurso polido, sorriso diplomático, taça erguida. O subsolo, tímido, ouviu tudo. A pergunta ecoou embaixo da terra: quem ganha quando o chão vira argumento? O minério, personificado, piscou um olho antigo e disse: “não me arranquem sem me devolverem o amanhã”.
Nos corredores da Justiça, o tempo foi esticado como elástico cansado. Sessenta dias a mais para investigar a compra de um banco — prazo que anda, mas não corre. O processo boceja, o papel cochila, e a verdade toma café frio. A Justiça, às vezes, usa chinelo em vez de botas: chega, mas devagar. Enquanto isso, a desconfiança treina corrida de rua.
E lá fora, no céu internacional, as asas sentiram medo. Companhias aéreas aconselhadas a desviar do Irã, porque a tensão sobe como termômetro esquecido no sol. Defesas em alerta, radar nervoso, o risco do “foi sem querer” rondando nuvens. O céu, que deveria ser azul de passagem, virou zona de cautela. Aviões rezam em silêncio; passageiros apertam o cinto como quem segura a própria fé.
Assim foi o dia: seco de água, molhado de ironia; duro de metal, macio de discurso; lento de Justiça, rápido de perigo. O Brasil bebeu diplomacia em taça fina enquanto o Sertão pediu um copo simples. O asfalto gritou, o céu cochichou, a terra escutou.
Que amanhã venha com menos rompimentos — de adutoras, de prudências, de promessas. Que a água volte a correr, que o volante aprenda responsabilidade, que o minério pague pedágio ao futuro, que a Justiça calce botas, e que o céu volte a ser apenas caminho. Porque notícia boa é aquela que não precisa ser metáfora para existir.




