CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
As notícias de hoje são surpreendentes. Surpreendem como quem abre a janela e encontra o mundo usando fantasia de carnaval fora de época: plumas de absurdos, confetes de contradições e um samba-enredo escrito à caneta nervosa da realidade.
Comecemos pelo caranguejo-uçá, esse filósofo de lama que anda de lado porque já entendeu que seguir em linha reta, por aqui, é ilusão. Entra em cena o período de defeso — um silêncio obrigatório para a pinça trabalhadora. O caranguejo ganha férias coletivas, licença poética da maré, proteção legal contra o apetite humano. Nada de captura, transporte, industrialização, comércio. O mangue respira. A lama agradece. O caranguejo, de terno invisível, assina o ponto da sobrevivência. Enquanto isso, há quem nunca entre em defeso — gente que captura, transporta e comercializa a ética todos os dias, sem fiscalização.
No capítulo seguinte, um homem suspeito de invadir a sede do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe é preso. O verbo “invadir” aqui não pede licença: arromba portas, pisa na palavra, bagunça a frase. Jornalista é sentinela do tempo; quando alguém invade sua casa, tenta sequestrar o relógio da verdade. A notícia geme, mas não se cala. Porque notícia ferida vira denúncia — e denúncia, quando respira, vira memória.
Aí vem o cemitério dos orelhões: cerca de 30 mil carcaças retiradas do país. Orelhões, esses elefantes urbanos que ouviam segredos, confissões de amor, ligações a cobrar e choros discretos. Foram degolados pelo avanço do toque digital. Silêncio metálico nas calçadas. Orelhões agora são fósseis de uma era em que a voz precisava de ficha e coragem. Hoje, falamos demais — e ouvimos de menos.
Bolsonaro é transferido da Superintendência da Polícia Federal em Brasília para Papudinha.
No centro do palco, o teatro jurídico arma a cena: transferência, cela, cuidados médicos 24 horas. A caneta decide o endereço e prescreve o remédio. O cárcere vira metáfora de um país que tenta se explicar olhando para trás, mas tropeça nos próprios ecos. Há camas que viram palanques, grades que viram discursos, corredores que ecoam mais do que verdades. A Justiça escreve em parágrafo longo; o povo lê em manchete curta.
Do outro lado do mapa, caixões atravessam o oceano. Soldados cubanos retornam em silêncio embalado por bandeiras e lágrimas. A morte não pede passaporte; a geopolítica, sim. A cerimônia tem música grave, olhar duro, homenagem que pesa como chumbo no peito. Corpos voltam. Perguntas ficam. A guerra nunca devolve o que leva — só devolve o vazio com laço.
E então, como cereja amarga do bolo, surge a cena internacional que parece piada mal contada: a idiota María Corina Machado entrega sua medalha de Nobel da Paz para o canalha Trump, uma medalha do Nobel da Paz entregue a quem coleciona conflitos. A paz, coitada, foi usada como moeda simbólica num balcão de vaidades. Medalha que deveria ser abraço virou aperto de mão gelado. A História, essa professora severa, anota no quadro: “ironia hiperbólica — prova surpresa”.
Entre o mangue protegido e o mangue humano, entre o orelhão aposentado e a palavra invadida, entre o silêncio dos caixões e o barulho dos discursos, o dia 15 passa como um trem sem freio emocional. Cheira a lama, a metal enferrujado, a papel timbrado, a incenso fúnebre. O mundo pede pausa, mas acelera. Pede cuidado, mas disputa.
Que aprendamos com o caranguejo: às vezes, andar de lado é o único jeito de seguir vivo. Que aprendamos com o orelhão: ouvir é tão urgente quanto falar. E que a paz — essa senhora exigente — não seja tratada como troféu de prateleira, mas como prática diária, dessas que dão trabalho e não rendem selfie.
Respire. O dia foi pesado. Amanhã, quem sabe, o noticiário venha menos armado — e mais humano.




