CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 14 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
Olá, caro leitor e cara leitora, espero que esteja tudo bem. Sente-se, por favor. Tome um suco de maracujá — daqueles bem gelados, para acalmar os nervos, baixar a pressão e preparar o espírito — porque as notícias de hoje vêm quentes, fervendo feito panela esquecida no fogo.
O dia 14 amanheceu com cheiro de fumaça e ironia. Em Aracaju, na Avenida Tancredo Neves, uma van resolveu cometer suicídio automobilístico em praça pública. Pegou fogo. Não foi metáfora: foi labareda real, língua de fogo lambendo o asfalto, cuspindo fumaça preta no céu azul. O trânsito, já lento por vocação, entrou em estado contemplativo: carros parados, motoristas filósofos, buzinas rezando em dó maior. O Corpo de Bombeiros chegou como anjo de mangueira na mão, domando o dragão mecânico. As chamas foram vencidas, mas o congestionamento — ah, esse ficou ali, soberano, como monumento à nossa rotina inflamada. A cidade suspirou fuligem e seguiu.
Enquanto isso, em Brasília, o noticiário decidiu virar biblioteca. A Procuradoria-Geral da República resolveu defender que Bolsonaro leia livros para reduzir pena. Ler para diminuir dias de castigo: eis a vingança poética da gramática. Cada página virada, quatro dias a menos. O verbo agora é “interpretar”. A literatura, essa velha subversiva, virou instrumento de redenção penal. Pode receber pastores — a fé entra, a televisão sai. Smart TV, não. Dizem que ela pensa demais, conversa demais, conecta demais. Internet é tentação moderna, serpente digital. Livro, não: livro é mudo, mas fala alto por dentro. Imagino o silêncio da cela quebrado apenas pelo som das páginas sendo viradas com raiva, curiosidade ou tédio. Quem diria: no país da desleitura, ler virou punição e salvação ao mesmo tempo.
E o mundo, sempre exagerado, resolveu lembrar que a tragédia não conhece fronteiras. No Irã, a execução do manifestante Erfan Soltani foi adiada. O enforcamento, essa palavra que pesa no pescoço da humanidade, ficou para depois. Uma ONG anunciou o adiamento, como quem joga um balde de água fria num forno de horrores. Mais cedo, Donald Trump — sempre ele, o eco barulhento do caos — afirmou que a “matança” havia sido interrompida. Palavra feia, crua, sangrenta: matança. O planeta prendeu a respiração por alguns segundos, como quem espera o próximo capítulo de uma série que nunca termina.
Entre uma van em chamas, um livro redentor e uma corda que ainda ameaça, o dia 14 de janeiro foi um teatro absurdo. O fogo queimou o trânsito, a leitura tentou apagar penas, e a morte, caprichosa, resolveu esperar mais um pouco. Tudo junto, tudo misturado, como um caldo grosso de contradições.
No fim das contas, caro leitor e cara leitora, o suco de maracujá ajuda, mas não resolve. O mundo segue acelerado, inflamável, contraditório. Entre a fumaça do asfalto e o pó das páginas, seguimos nós — tentando não queimar, tentando compreender, tentando sobreviver. Respire fundo. Amanhã tem mais.




