CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 11 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O domingo acordou com cheiro de incenso e suor de alegria. Japaratuba vestiu sua melhor roupa — aquela feita de tambor, fita colorida e fé antiga — e saiu para a rua como quem abre o peito para o mundo. A cidade, celeiro da cultura sergipana, pulsou feito coração em dia de corrida: missa, procissão de Santo Reis e São Benedito, cortejo de grupos folclóricos, coroação do rei e da rainha do Cacumbi. Era a tradição caminhando de mãos dadas com o presente, sussurrando ao futuro: “aqui, a alma não se aposenta”. A cultura não pediu licença; simplesmente entrou, sentou na sala e serviu café com memória.
Enquanto os sinos afinavam o céu de Japaratuba, Aracaju ouviu outro som — o estalo seco do susto. No Rio Poxim, duas embarcações pegaram fogo, como se o rio, cansado de engolir descuidos humanos, resolvesse cuspir labaredas. A água tentou apagar o incêndio com lágrimas salgadas, mas o fogo, esse ator exagerado, fez cena. A Marinha promete investigar causas e responsabilidades; o rio, por sua vez, já investigou tudo faz tempo e concluiu, em silêncio: quando o homem brinca de fósforo, a natureza vira bombeira sem salário.
No cinema do mundo, as cortinas se abriram para o brasileiro Wagner Moura ganhar o palco com elegância e nervo. O prêmio no Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama foi como um aplauso que atravessou oceanos e pousou no peito de quem ainda acredita que arte não é luxo, é ferramenta. O filme O Agente Secreto também levou melhor obra em língua não inglesa, perdendo a estatueta maior por um detalhe de roteiro do destino — porque o destino, às vezes, é um crítico severo. Ainda assim, a mensagem ficou clara: filmar é resistir; criar é insistir; contar histórias é salvar gente do esquecimento. O cinema falou grosso e falou bonito, lembrando que câmeras também são bússolas.
Mas o noticiário, esse cronista sem pudor, resolveu mudar de tom e nos levou ao frio do Ártico. Lá, a Groenlândia virou xadrez geopolítico: europeus discutem tropas, a Dinamarca fecha a cara, os Estados Unidos ensaiam passos largos, e o planeta observa como quem vê um adulto disputando brinquedo em recreio global. O discurso vem embalado em segurança estratégica, mas o embrulho cheira a minério, rota marítima e cifrões de gelo. A ilha, silenciosa, assiste à conversa como quem diz: “sou terra, não troféu”. O frio, irônico, parece rir — porque quando os poderosos aquecem ambições, o mundo inteiro pega febre.
Entre o cortejo folclórico de Japaratuba e o estalo do Poxim, entre o aplauso dourado do cinema e o gelo diplomático do Norte, o domingo ensinou uma lição simples e complexa: a humanidade dança no mesmo salão, mas insiste em pisar no pé do parceiro. A cultura salva, a arte denuncia, a natureza reage, a política provoca. E nós? Nós seguimos cronicando — com humor para não enlouquecer, ironia para não engolir seco, poesia para respirar melhor.
Japaratuba pulsa cultura. O rio pede cuidado. O cinema pede coragem. O planeta pede juízo. E o domingo, cansado de ser apenas descanso, virou professor. Quem quiser aprender, que chegue mais perto. Quem não quiser, que pelo menos não jogue fósforo no rio nem gelo no futuro.




