CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 09 de janeiro acordou com cara de romance policial misturado com tragicomédia social, desses em que o leitor ri para não chorar e chora para não enlouquecer. As notícias chegaram como uma ventania desordenada, bagunçando a casa da razão, derrubando móveis da esperança e deixando a alma com cheiro de fumaça, lixo e papel falsificado.
No interior de Sergipe, dois homens decidiram brincar de alquimistas modernos: tentaram transformar documentos falsos em dinheiro verdadeiro. Era o teatro do absurdo bancário — identidades inventadas, dados reais roubados do INSS e a velha ilusão de que o crime é um atalho curto, quando na verdade é uma estrada esburacada que sempre termina no mesmo lugar: a delegacia. Os celulares apreendidos pareciam cofres de segredos digitais, sussurrando golpes em código binário, enquanto os papéis falsos choravam em silêncio, cansados de fingir que eram gente. Areia Branca, Nossa Senhora da Glória e Ribeirópolis viraram capítulos de um roteiro mal escrito, onde a ganância tropeça na própria pressa.
Em Aracaju, a fiscalização virou palco e o palco virou ringue. Ambulantes e guardas municipais se encararam como personagens de uma ópera desafinada, regida pelo caos urbano. O comércio informal gritava por sobrevivência; a ordem pública respondia com apito e farda. No meio disso, a cidade assistia, dividida entre a necessidade de trabalhar e a rigidez das regras. Era o empurra-empurra da desigualdade, esse monstro invisível que sempre chega antes da conciliação.
Enquanto isso, em Itaporanga D’Ajuda, o fogo resolveu escrever sua própria crônica. A vegetação ardeu como se a terra estivesse febril, suando labaredas. O incêndio parecia um pedido de socorro da natureza, cansada de ser tratada como cenário descartável. A fumaça subiu como reza sem padre, pedindo cuidado, pedindo juízo, pedindo futuro.
No tabuleiro internacional, o mundo vestiu terno e gravata. Após 25 anos de conversa, promessas e adiamentos, o acordo entre Mercosul e União Europeia foi celebrado como um casamento tardio: muitos brindes, muitos discursos e muitas dúvidas sobre quem vai lavar a louça depois. Lula sorriu com ares de dia histórico, enquanto agricultores franceses franziram a testa, desconfiados. O multilateralismo dançava valsa, mas com um pé ainda preso na lama dos interesses nacionais.
Do outro lado do planeta, nas Filipinas, o lixo — sempre esquecido, sempre empurrado para longe — resolveu cair de volta sobre a humanidade. Um monte de resíduos desmoronou e levou vidas, como se dissesse: “vocês me ignoram, mas eu retorno”. A avalanche de lixo foi mais que um acidente; foi um manifesto trágico do consumo sem freio, do descarte sem consciência. O que jogamos fora nunca vai embora de verdade — ele apenas espera sua vez de cobrar a conta.
E no Irã, as ruas ferveram. Carros queimados, bandeiras rasgadas, gritos rasgando o ar. O povo, cansado de engolir silêncio, decidiu cuspir revolta. A economia foi o fósforo, a opressão foi a gasolina. Trump ameaçou, o regime reagiu, e o mundo assistiu como quem vê um barril de pólvora fumegando. Ali, a esperança corre, mas corre ferida, mancando entre a coragem e o medo.
O dia terminou assim: com o crime tentando ser esperto, o Estado tentando ser forte, o povo tentando sobreviver, a natureza tentando respirar e o mundo tentando se entender. Janeiro mal começou e já pesa como dezembro cansado. E nós, leitores desse noticiário poético-trágico, seguimos perguntando: até quando a humanidade vai insistir em falsificar documentos, direitos, florestas e verdades, achando que o futuro aceita cópia mal feita?
O 09 de janeiro foi isso: um espelho rachado, onde cada manchete refletiu um pedaço da nossa própria contradição.




