Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 07 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia 07 de janeiro acordou com o coração de Sergipe tossindo baixinho — não por falta de ar, mas por falta de sangue. O Hemose, esse cofre vermelho da vida, acendeu a luz de “reserva” como quem avisa: “o tanque está no osso”. A+, O+, O-… os tipos mais pedidos viraram artigos de luxo, como se a solidariedade tivesse entrado em férias coletivas e deixado um bilhete: “volto quando der vontade.”
E o mais engraçado — daquele riso que dói no canto do olho — é que sangue não se fabrica em fábrica, não se imprime em gráfica, não se baixa em aplicativo. Sangue não aceita pix, nem parcelamento sem juros. Sangue é um poema escrito dentro de nós, mas que só salva alguém quando a gente decide virar caneta. E tem gente que guarda a própria tinta como quem guarda ouro, esquecendo que a vida é um banco que só funciona quando a gente faz depósito de humanidade.
Enquanto isso, lá em Brasília, o Planalto virou vitrine de futuro: Lula anunciou a primeira Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes do SUS, com sede em São Paulo — como se o país, cansado de filas e suspiros, resolvesse vestir um jaleco tecnológico e dizer: “agora vai.” Estavam lá ministro, ex-presidente, solenidade, discursos com brilho de LED. A promessa veio grande, do tamanho de um sonho em alta definição: medicina de alta precisão, inteligência artificial, tecnologia avançada… e a esperança, essa teimosa, bateu palmas com as mãos tremendo.
Dizem que a rede pode reduzir em até cinco vezes o tempo de espera nas emergências. Tomara. Porque o Brasil conhece bem a sala de espera — aquele purgatório de cadeiras e relógios tortos, onde a dor vira senha e o tempo vira inimigo. Se a inteligência artificial conseguir fazer o que a inteligência natural às vezes esquece — olhar para gente como gente — já será um milagre sem necessidade de promessa. Mas a ironia do dia cutuca: não adianta hospital inteligente com estoque humano vazio. Não existe tecnologia que substitua o gesto simples de estender o braço. O futuro pode ser moderno, mas a vida ainda depende do básico: sangue circulando, coração funcionando, e uma sociedade que não se permita ficar anêmica de compaixão.
E, no meio desse roteiro, a geopolítica apareceu como novela das oito com pitada de ringue. Trump e Gustavo Petro, depois de trocas de farpas, falaram por telefone. Que cena: dois presidentes como dois galos em quintal internacional, batendo as asas, inflando o peito, e depois dizendo “a gente se vê”. Trump falou em “situação das drogas”, divergências, e já acenou com a possibilidade de encontro na Casa Branca, como quem marca um café para resolver tempestades. A diplomacia, às vezes, é isso: um aperto de mão por cima do abismo, um sorriso ensaiado com os dentes da tensão à mostra.
E assim o dia 07 passou: Sergipe pedindo sangue, Brasília prometendo futuro, e o mundo conversando ao telefone como quem tenta domar a própria vaidade. No fim, a lição veio simples, mas pesada: enquanto líderes negociam palavras e máquinas prometem milagres, a vida continua dependendo de algo que nenhuma tecnologia inventou — o gesto humano de doar, de cuidar, de dividir.
Porque, no fundo, o planeta não precisa apenas de hospitais inteligentes. Precisa de gente acordada. E, principalmente, de corações que não deixem o Hemose virar um deserto vermelho.




