CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 04 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O domingo amanheceu com cheiro de jornal queimado. Não foi metáfora: foi fumaça mesmo. Uma dessas cortinas grossas, teatrais, que o mundo puxa quando quer esconder o cenário. A Rodovia dos Náufragos na zona sul de Aracaju virou palco de ópera trágica — carros em coro lento, buzinas afinadas em dó de impaciência, e o sol, esse diretor distraído, iluminando o caos com cara de quem não tem nada a ver com isso.
Na Gameleira, o fogo decidiu brincar de artista plástico. Pintou o céu de cinza, assinou a obra com fuligem e deixou motoristas tateando o invisível. A fumaça, vaidosa, fez pose: “olhem para mim”. E olhamos. O trânsito engasgou. A pressa virou tosse. O medo cochichou nos retrovisores. Os bombeiros chegaram como poetas práticos — versos d’água — e o helicóptero do GTA, esse colibri de metal, bebeu lagoa e cuspiu alívio sobre as chamas. O incêndio foi domado. Ninguém se feriu. As casas respiraram. A vegetação ficou com cicatriz, dessas que o tempo promete curar, mas a memória insiste em coçar.
Enquanto isso, o planeta resolveu trocar de canal — e piorou. Na Venezuela, a soberania foi tratada como peça de xadrez de mesa de bar: empurra, toma, controla. Um presidente capturado, um país anunciado como “em transição” por decreto estrangeiro, e a palavra controle usada com a naturalidade de quem pede açúcar no café. A diplomacia tossiu. A América Latina arregalou os olhos. O direito internacional, esse senhor de bengala, foi atravessado na faixa enquanto o semáforo piscava “atenção”. Ironia hiperbólica do dia: chamaram de ordem o que cheira a arbítrio. Chamaram de cuidado o que pisa.
A crônica, porém, não ficou só na pólvora. Na Califórnia, os cabelos brancos viraram faróis. Idosos atuando como coaches para idosos — não para ensinar atalhos, mas para lembrar caminhos. Conselheiros da própria idade, supervisionados por gente que escuta com ciência, provando que o tempo não é um fim de linha, é um retorno. Ali, a experiência virou pão quente. A velhice sorriu de canto e disse: “ainda sirvo”.
Aqui, enquanto isso, os números dos agrotóxicos bateram recorde e bateram palmas para si mesmos. Cresceram como ervas daninhas em planilha oficial. A agricultura virou laboratório sem jaleco, e o futuro foi convidado a provar uma sopa com ingredientes difíceis de pronunciar. A ironia é que chamaram de progresso o que corre mais rápido que a cautela. O solo engoliu. O rio anotou. O corpo — esse arquivo sensível — ficou para depois.
E, como se o noticiário quisesse testar a resistência do leitor, a Nigéria sangrou num mercado. Barracas viraram fogueiras. Alimentos viraram saque. Pessoas viraram estatística. Trinta mortos. Sequestros. Um vilarejo reduzido a verbo no passado. O mercado, que deveria cheirar a vida, cheirou a medo. A violência entrou como ladrão e saiu como manchete. O mundo suspirou — desses suspiros curtos, que não salvam.
O dia 04 de janeiro passou como um caminhão carregado de símbolos: fogo que cega, poder que captura, experiência que cuida, veneno que cresce, bala que cala. No meio disso tudo, a gente segue — com humor para não quebrar, com ironia para não aceitar, com poesia para respirar. Porque a crônica é esse balde d’água jogado no incêndio do cotidiano: não apaga tudo, mas abre um clarão onde a consciência pode passar.
E que passe. Antes que a fumaça volte a posar.




