CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 03 de janeiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O sábado dia 03 de janeiro acordou com o barulho de pratos quebrando no mapa-múndi. O café da manhã da humanidade veio frio, servido em xícaras rachadas, enquanto o relógio engasgava segundos e o planeta pigarreava notícias. O mundo abriu os olhos com olheiras — e Sergipe, coitado, penteava o vento.
Lá fora, o céu resolveu brincar de general. Aviões escreveram assinaturas de pólvora sobre Caracas, e as bombas, vaidosas, caíram como exclamações histéricas no fim de uma frase mal pensada. A soberania virou vidro: estilhaçou. O hipócrita assassino Trump, o presidente dos Estados Unidos que quer ser ditador, ironicamente mandou sequestrar o presidente Maduro, o ditador da Venezuela. O presidente Maduro foi levado como quem arranca um parágrafo do livro alheio — sem pedir licença ao autor. A guerra, essa velha senhora de bengala afiada, atravessou a rua outra vez, reclamando que a paz anda ocupando espaço demais.
A capital venezuelana virou uma sala de espera da história: sirenes como soluços metálicos, prédios tossindo poeira, e corpos carbonizados — mais de cem mortos, militares e civis — assinando o silêncio definitivo. O mundo, de gravata, fingiu que não viu; o noticiário, de luvas, contou os números como quem soma moedas. A ética? Escorregou na própria hipérbole e caiu de costas. A liberdade do povo venezuelano não está no discurso. A verdade nua e crua é que os Estados Unidos, os ladrões do mundo, querem roubar as riquezas minerais do povo venezuelano, principalmente o petróleo.
Enquanto isso, discursos caminharam em bicos de ovos. Condena-se o ato, mas não se aponta o dedo — medo de sujar a mão, talvez. A diplomacia fala baixo quando o canhão fala alto. Palavras usam filtro solar para não queimar no sol do poder. E a justiça venezuelana, num giro de roteiro, chama a vice ao palco principal: o poder troca de cadeira, mas o teatro continua o mesmo, com cortinas chamuscadas.
Aqui, no Brasil, no solo sergipano, o vento resolveu ser manchete. Não veio para refrescar: veio para empurrar. Soprou com a arrogância de quem acha que manda na casa alheia. Telhados aprenderam a voar sem asas; estruturas fizeram yoga ao contrário; árvores rezaram de joelhos. A Defesa Civil anotou quilômetros por hora, mas esqueceu de medir o susto por minuto. O interior sentiu na pele: prejuízo não se mede em metros por segundo — mede-se em noites sem sono.
É curioso como o mundo grande explode e o mundo pequeno balança, mas ambos doem no mesmo corpo. A geopolítica cai do céu lá longe; o vento derruba o telhado aqui perto. Em comum, a fragilidade. O planeta, esse poeta desastrado, rima guerra com vento e acha bonito.
No meio disso tudo, a paz tenta atravessar a avenida sem faixa. A soberania pede socorro como quem grita no meio da ventania: a voz se perde, mas a urgência fica. A ironia é que os fortes falam em nome da ordem enquanto desorganizam o chão; os fracos recolhem os cacos e aprendem a varrer a própria história.
O dia 03 de janeiro foi isso: um editorial escrito com poeira, pólvora e vento. O mundo respirou curto, Sergipe respirou torto, e nós respiramos fundo — porque, quando a realidade aperta, só a lucidez afrouxa o nó. Que a próxima página venha com menos bombas e mais telhas no lugar. Que o vento sopre poesia, não prejuízo. E que a soberania, cansada de apanhar, encontre abrigo — nem que seja sob o telhado simples da dignidade.




