CRÕNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 31 de dezembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 31 de dezembro de 2025
Publicado em 01/01/2026 às 23:49

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

2025 está de malas prontas. Já desceu as escadas com o salto torto do cansaço, deixou a chave em cima da mesa e avisou — sem pedir licença — que a vida segue, mesmo quando a gente ainda está varrendo os confetes do ontem. É o último dia do ano: o calendário suspira, o relógio pigarreia, e o mundo, esse ator exagerado, entra em cena para a derradeira fala.

Em Aracaju, a festa da virada mexe até com o humor do asfalto. Ruas trocam de lugar como cadeiras numa brincadeira de criança, e o trânsito vira um balé desengonçado de buzinas impacientes e pisca-alertas nervosos. O semáforo, coitado, trabalha dobrado, piscando ordens que ninguém obedece. A cidade veste branco, mas o caos insiste em ir de preto — elegante, persistente, tradicional.

Para quem decide fugir do relógio e atravessar fronteiras municipais, o transporte intermunicipal ganha fôlego extra. Ônibus viram arcas de Noé modernas, levando sonhos, esperanças, parentes distantes e aquele peru embrulhado em papel alumínio. O volante gira, o motor ronca, e o desejo coletivo é o mesmo: chegar inteiro ao próximo ano.

Nas estradas, a fiscalização aperta o cerco. A rodovia fica séria, de sobrancelha franzida, como professora em dia de prova final. É a Operação Réveillon lembrando que imprudência não combina com champanhe, e que ultrapassar limites — de velocidade ou de juízo — cobra juros altos demais.

Enquanto isso, no mundo invisível dos papéis timbrados, decisões escorrem como café forte. Dívidas ganham fôlego, prazos se alongam, parcelas se vestem de promessas futuras. O dinheiro, esse personagem arisco, prefere esperar mais um pouco para cair na conta de quem trabalhou. A justiça, às vezes, caminha de chinelo: chega, mas demora.

O INSS, esse gigante cansado de tanto ouvir histórias, descobre que foi enganado no ouvido. Fraudes manipulam números, apertam botões errados, fazem do atendimento um teatro de sombras. O segurado espera na linha, ouvindo música repetida, enquanto alguém ajusta indicadores como quem ajeita maquiagem diante do espelho rachado. O silêncio da espera dói mais que a notícia.

Lá fora, em Buenos Aires, o calor grita. O sol castiga, e a luz resolve tirar folga. Um apagão mergulha quase um milhão de pessoas na escuridão, como se o dia tivesse esquecido de amanhecer. Ventiladores param, paciência evapora, e o suor vira idioma universal. A energia volta aos poucos, tímida, pedindo desculpas em parcelas.

E na São Silvestre, o corpo humano desafia o calendário. Tanzaniana e etíope cruzam a linha como se o tempo fosse apenas uma sugestão. Os brasileiros chegam logo atrás em 3° lugar, orgulhosos, ofegantes, provando que persistência também sobe pódio. A rua vira pista, o coração vira tambor, e o último dia do ano termina correndo — porque parar nunca foi opção.

Assim se despede 2025: um ano que riu quando devia chorar, chorou quando devia rir e, mesmo tropeçando, seguiu em frente. Agora, ele fecha a porta devagar, para não acordar o amanhã. Que 2026 encontre a casa arrumada — ou ao menos o coração disposto a tentar outra vez.