CRÕNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 29 de dezembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 29 de dezembro de 2025
Publicado em 30/12/2025 às 20:01

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Amigo e amiga, leiam com atenção.
O dia 29 acordou espreguiçando as contradições do mundo, como quem boceja com um espelho na frente e não gosta do que vê. O calendário, cansado de promessas, cochichou: “estamos no fim do ano, mas o fim das histórias nunca chega”. E não chegou mesmo.

Na Cadeia Pública de Areia Branca, o barulho não foi de fogos, foi de grades conversando entre si. Um detento disse não — palavra pequena, mas explosiva — e o presídio virou panela de pressão esquecida no fogo. A transferência recusada virou manifesto, e o tumulto ganhou pernas. As paredes ouviram mais do que deveriam, os corredores aprenderam a gritar, e o silêncio, acuado, pediu escolta. A prisão, essa metáfora em concreto armado, mostrou que não prende o descontrole: apenas o abriga. E quando o Estado tenta mover corpos como móveis, descobre que gente não vem com rodinhas.

Enquanto isso, lá longe, no mapa verde-amarelo das planilhas, a soja decidiu falar alto. Empresas de exportação ensaiam abandonar a Moratória da Soja, como quem larga um pacto no acostamento porque o lucro tem pressa. O Mato Grosso afia a tesoura dos incentivos fiscais e diz: “quem protege a Amazônia paga a conta”. A floresta, coitada, continua sem CPF, sem CNPJ e sem advogado. As árvores, testemunhas silenciosas, balançam a cabeça em desaprovação — mas ninguém traduz vento em relatório. A Amazônia segue respirando por aparelhos, enquanto o agronegócio treina corrida de cem metros rasos rumo ao próximo trimestre.

No cofre do governo, o rombo fez eco. R$ 83,8 bilhões até novembro — um buraco tão grande que dá para perder promessas lá dentro. O Tesouro promete um dezembro salvador, superávit de R$ 20 bilhões, como quem joga água benta em incêndio e chama de milagre. A contabilidade reza, o mercado acende vela, e o cidadão confere o bolso: vazio com fé. A matemática oficial dança samba com a esperança, mas o preço do arroz não sabe sambar.

E no noticiário da saúde, o ex-presidente trava duelo épico contra soluços persistentes. O nervo frênico vira protagonista, bloqueado à esquerda, bloqueado à direita — um pingue-pongue clínico de soluços teimosos. O corpo, esse palanque biológico, faz discurso próprio. Há soluços que são apenas espasmos; outros parecem querer dizer algo. A medicina tenta calar o “hic”, a política tenta calar o resto.

No tabuleiro internacional, drones visitam telhados e narrativas. A Rússia acusa, a Ucrânia nega, o mundo prende a respiração. O Kremlin promete resposta, Zelensky chama de mentira estratégica, e as palavras caem como estilhaços. A guerra, velha senhora de vestidos novos, sorri com sarcasmo: muda o figurino, mantém o roteiro. Negociação vira ameaça, ameaça vira manchete, e a paz segue em fila de espera, sem senha.

E no mar, esse cemitério sem lápides, mais de três mil migrantes morreram tentando chegar à Espanha em 2025. A rota atlântica engole sonhos como quem mastiga sal. As Ilhas Canárias aparecem no horizonte como miragem com endereço fixo. Barcos viram caixões improvisados; o oceano, juiz sem toga. A Europa fecha portas, o desespero abre feridas, e a esperança aprende a nadar sem colete. Cada nome perdido vira estatística; cada estatística pede silêncio — e o silêncio, cúmplice, obedece.

Assim foi o dia 29: um mosaico de não, rombos, soluços, drones e afogamentos. O mundo falou em línguas diferentes, mas a mensagem foi a mesma: falta cuidado, sobra pressa. O ano termina com o coração acelerado e a consciência pedindo fôlego. Se há algo a transferir — que não seja gente contra a vontade, floresta sem defesa, orçamento sem pudor, corpo sem escuta, planeta sem compaixão.

Amigo e amiga, leiam com atenção: o futuro não aceita soluços. Ele pede voz firme, passo humano e memória afiada. O resto é barulho.