CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 27 de dezembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 27 de dezembro de 2025
Publicado em 29/12/2025 às 8:57

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Abram o jornal da vida e vamos à leitura. Folheiem com cuidado: as páginas ainda cheiram a fogos queimados, suor de fila e promessas com validade curta. O dia 27 acordou com pressa, como quem tropeça no próprio calendário e finge elegância.

No aeroporto de Aracaju, as malas aprenderam a andar sozinhas. Cem novos voos brotaram do chão como se o céu tivesse recebido adubo governamental. O saguão virou aquário humano: gente boiando em expectativas, crianças chorando em dialetos universais, anúncios piscando como vaga-lumes elétricos. O vento empurrou o estado para cima — e Sergipe, por algumas horas, acreditou que tinha asas. O avião, esse pássaro metálico de fé terceirizada, prometeu fugir do ano velho sem olhar para trás.

Enquanto isso, na terra firme, as lotéricas viraram templos ecumênicos do acaso. O prêmio da Mega da Virada, um bilhão de reais — cifra que soa como trovão — puxou fiéis de todas as denominações. Gente rezando com o lápis, apostando com o coração, assinando o destino com caneta azul. A esperança vestiu bermuda, chinelo e CPF. O Brasil, esse poeta do improviso, apostou de novo que a sorte pode cair do céu em forma de bolinha numerada. E caiu… para poucos. Para os outros, restou o consolo filosófico: “vai que no ano que vem”.

Em Brasília, o texto da lei ganhou pontuação dramática. Lula sancionou cortes de isenções e vetou o jabuti que tentava ressuscitar emendas não pagas — um zumbi orçamentário com apetite por cofres. A caneta presidencial virou bisturi: cortou aqui, costurou ali, deixou cicatriz onde doeu. As bets, essas roletas digitais da ansiedade moderna, passaram a pagar mais imposto — afinal, vício também gera arrecadação. O jogo continua, mas agora com taxa de serviço. Flávio Dino, antes, já tinha barrado o bicho; o jabuti voltou para o casco da história, lento e observado.

Lá fora, o mundo esfriou sem pedir licença. Nos Estados Unidos, a neve desceu com voz de maestrina autoritária. Nova York vestiu branco, o Central Park guardou 11 centímetros de silêncio gelado — a maior lembrança desde 2022. Aviões ficaram parados como pássaros com medo de poesia. Mais de 14 mil voos atrasados ou cancelados, domésticos e internacionais somando frustrações em milhas perdidas. A neve escreveu cartas que ninguém leu a tempo. O relógio congelou, e o inverno ensinou que a pressa também escorrega.

Entre partidas e chegadas, filas e vetos, números e flocos, o dia 27 nos olhou com ironia hiperbólica e disse: respirem. O país corre, aposta, taxa, decola; o mundo neva, atrasa, cala. Tudo acontece ao mesmo tempo — e nada espera. A vida, essa editora impiedosa, fecha a edição sem pedir revisão.

Fechem o jornal da vida por hoje. Amanhã tem nova manchete, novo voo, nova fila, nova fé. E nós, leitores teimosos, continuamos — porque viver, no fim, é aceitar que o texto nunca vem pronto.