CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 10 de novembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 10 de novembro de 2025
Publicado em 11/11/2025 às 1:32

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

A segunda-feira amanheceu com um quê de realismo mágico: no Parque dos Cajueiros, em Aracaju, uma jiboia decidiu fazer seu café da manhã nas alturas — um banquete alado, servido no galho mais poético da natureza. Enquanto os humanos correm atrás de “metas sustentáveis”, ela, sábia e paciente, cumpre seu papel ecológico com a serenidade de quem não precisa de conferência climática para entender o ciclo da vida.

A ave, coitada, talvez cantasse o hino da liberdade quando o destino a fez virar parágrafo da cadeia alimentar. E o engenheiro agrônomo, no meio da poda, acabou podando também a ilusão de que o mundo é racional. Registrou a cena: a jiboia, em sua performance silenciosa, nos lembrando que o instinto é mais sincero que muitos discursos diplomáticos.

E falando em discursos… enquanto a serpente engolia sua vítima sem pressa, lá em Belém o planeta tentava engolir o próprio caos com elegância. A COP30, esse teatro global onde líderes vestidos de gravata falam de verde enquanto assinam acordos cinzentos, abriu suas cortinas com aplausos e promessas recicláveis. O embaixador André Corrêa do Lago anunciou um “consenso histórico” — e o mundo, cansado, fingiu acreditar. A harmonia dos países soa tão real quanto o sorriso de quem promete plantar árvores no PowerPoint.

Mas ainda assim, é preciso celebrar. Se a jiboia cumpre o que a natureza manda, que mal há em ver os humanos fingindo que mandam na natureza? A diferença é que a cobra não mente — ela age. Os diplomatas, por outro lado, enrolam mais que ela. O planeta esquenta, as calotas choram, e nós, entre um ar-condicionado e outro, tiramos selfies de consciência limpa.

Enquanto isso, na França, Nicolas Sarkozy deixou a prisão depois de apenas três semanas de uma pena de cinco anos. A Justiça o libertou, provando mais uma vez que as grades do poder são feitas de algodão doce. Dizem que foi um caso de “financiamento ilegal”, mas ele nega — e negar virou esporte olímpico entre políticos. O ex-presidente sai sorridente, talvez pensando que a corrupção também tem direito à liberdade provisória.

O mundo gira, o cinismo prospera e o povo aplaude, talvez por hábito. Em Belém, discutem o futuro da Terra; em Paris, libertam o passado envergonhado; em Aracaju, a jiboia continua seu almoço sem culpa. No fundo, todos devoram algo — o planeta, a ética ou apenas o tempo.

A natureza, essa sábia professora sem diploma, ainda tenta nos ensinar: há mais verdade na fome de uma cobra do que nas promessas de um congresso climático. E o silêncio do Parque dos Cajueiros é mais honesto que qualquer plenário lotado.

No fim, a jiboia descansou no galho, plena e farta, enquanto o mundo seguia faminto — de coerência, de decência, de ar puro e de verdade.

E lá no alto da árvore, sob o sol de Aracaju, o instinto brilhou como metáfora viva: a Terra não precisa de discursos — precisa que a humanidade pare de se alimentar de si mesma.