CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de novembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de novembro de 2025
Publicado em 10/11/2025 às 7:01

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O domingo nasceu com cheiro de fumaça e promessas queimadas. Em Aracaju, o sol ainda se espreguiçava quando o fogo resolveu brincar de protagonista no Bairro Santos Dumont. As labaredas, vaidosas, desfilaram pelas paredes de uma casa como se fossem bailarinas ensandecidas, pintando de vermelho o que antes era apenas cotidiano.
Uma jovem de 18 anos — talvez sonhando com o futuro ou com o fim de semana — acordou não com o canto do galo, mas com o grito do fogo. Saiu viva, mas com a alma chamuscada. O incêndio não levou só móveis: levou o sossego, aquele bem invisível que mora no canto do peito e raramente volta depois de uma tragédia.

O Corpo de Bombeiros chegou rápido, heróis anônimos de capacete e coragem, apagando chamas e acendendo esperanças. E o povo, como sempre, assistia de perto, ajudando, rezando, filmando — porque no Brasil de 2025, tragédia também é conteúdo.

Enquanto o fogo consumia paredes, lá longe, uma rota aquática unia o Amazonas ao Pacífico. Simone Tebet, com o olhar de quem enxerga mapas como quem lê destinos, anunciou que o Brasil abrirá um novo caminho pelo rio. Um projeto fluvial — quase poético — ligando o coração verde da Amazônia ao azul salgado do Pacífico. Um sonho de integração que soa bonito, mas que corre o risco de naufragar em promessas políticas. Afinal, o Brasil é mestre em transformar pontes em discursos e barcos em gabinetes flutuantes.

Do outro lado do mundo, o vento perdeu a paciência. O supertufão Fung-wong soprou as Filipinas com a fúria de um deus exilado, varrendo casas, esperanças e vidas. Dois mortos, mais de um milhão de desalojados — e a Terra, cansada de ser maltratada, parece ter decidido responder com trovões e lágrimas. É a natureza gritando o que o homem finge não ouvir: “Vocês incendiaram a casa comum e agora reclamam da fumaça!”

Ah, humanidade… tão rápida para construir estradas e tão lenta para pavimentar a empatia. Enquanto uns constroem rotas para o futuro, outros veem suas rotas queimarem no presente. O fogo do Santos Dumont e o tufão das Filipinas são irmãos de tragédia — filhos da mesma mãe ferida chamada Terra.

No primeiro dia do Enem, 3,5 milhões de estudantes fizeram as provas. Aplicação ocorreu sem intercorrências significativas. Número de inscrições aumentou 11% em relação a 2024 e mais de 38% comparado a 2022. Redação abordou “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”.

No meio disso tudo, o domingo seguiu seu curso. As redes sociais amanheceram fervendo de “força e fé”, 1° domingo de provas do Enem, enquanto o mundo seguia pegando fogo — literal e metaforicamente. O planeta parece um grande incêndio com poucas mangueiras e muitos celulares.

Mas há algo de esperançoso nisso tudo. Porque mesmo entre cinzas, o ser humano insiste em soprar vida. A menina de Aracaju sobreviveu. O rio do Amazonas seguirá correndo, teimoso e poético. E talvez, um dia, o vento volte a ser apenas brisa — e o fogo, apenas calor de fogão.

Até lá, seguimos.
Com o coração em brasas e a alma em reconstrução.
Porque viver, meu caro leitor, é isso: apagar um incêndio hoje, remar contra a corrente amanhã e tentar dormir em paz enquanto o mundo lá fora ainda arde.