CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 01 de novembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O primeiro dia de novembro amanheceu com cheiro de promessa nova e o barulho de um Brasil que tenta, mais uma vez, reinventar o próprio destino. O sol saiu como quem abre um portal dourado — e lá veio o Confiança, o querido Dragão do Bairro Industrial, vestindo terno de empresário e sorriso de executivo: a proposta de transformação em SAF foi aprovada por unanimidade. O time sergipano agora não é mais apenas um clube; é uma empresa, uma esperança acionária com cotação na Bolsa dos Sonhos. Dizem que o futebol virou negócio — mas, no fundo, continua sendo aquela paixão que não cabe em planilhas. O torcedor não compra ações; compra ilusões parceladas em gols.
O Confiança agora tem CNPJ, mas o coração continua batendo no Batistão. Que venham os investidores, os lucros, os patrocínios e, quem sabe, até uma Libertadores imaginária. A torcida vibra com fé de quem viu o dragão sair do brejo para voar sobre balanços financeiros. Se o futebol é empresa, que ao menos a alegria seja o lucro líquido do povo.
Enquanto isso, lá no norte do mapa e nas alturas da diplomacia climática, Lula inaugurava o novo aeroporto internacional de Belém — aquele que vai receber a COP 30, o grande congresso planetário dos discursos recicláveis e das promessas biodegradáveis. O Terminal Portuário de Outeiro também foi requalificado, brilhando como um salão de festa para receber navios transatlânticos e autoridades de todos os cantos do globo. É o Pará virando passarela de compromissos ecológicos, onde os líderes mundiais chegam em jatinhos para falar de emissões de carbono. Ironia do destino: para salvar o planeta, gastam combustível até para abrir o microfone.
Mas há poesia nesse paradoxo: o Brasil se pinta de verde, o aeroporto respira expansão, e o povo, com o pé na lama e o olhar no futuro, continua acreditando que um vento novo pode soprar das margens do Amazonas até o sertão sergipano.
Já em Brasília, o Congresso decidiu brincar de Deus — reformando o sistema eleitoral com a mesma ousadia de quem troca as regras do jogo no meio da partida. O tal “distrital misto” promete dar ao eleitor o poder de escolher mais diretamente seus representantes, mas o povo ainda não entendeu se isso vai afastar os corruptos ou apenas trocar os apelidos. O relator do projeto diz que assim o crime organizado terá menos espaço, mas o brasileiro, acostumado a ver ladrão ganhar voto e santo ser esquecido, prefere esperar sentado — porque, de pé, já cansou.
No fundo, Brasília é um grande palco, onde cada político ensaia seu papel num teatro de egos e promessas. O povo, coitado, é a plateia que paga o ingresso mais caro: o imposto da paciência.
E quando o mundo parecia girar em compasso de esperança, uma notícia da Índia rasgou o tecido do dia com fios de tragédia. Um tumulto em um templo — 25 mil fiéis apertados em um espaço para 3 mil — e o sagrado virou caos. Nove mortos, dezenas de feridos, orações que se transformaram em gritos. O excesso de fé matou mais do que a falta dela. O ser humano, tão pequeno diante do divino, insiste em amontoar-se como se pudesse tocar o céu por aproximação.
Há algo profundamente humano e trágico nisso: o mesmo impulso que move torcedores ao estádio e fiéis ao templo é o que move a humanidade ao abismo — o desejo de pertencer, de acreditar, de ser parte de algo maior, mesmo que isso custe o próprio ar.
E assim, o dia 1º de novembro se despediu com um mosaico de contrastes: o time de futebol que vira empresa, a política que promete purificação, o planeta que discursa sobre si mesmo, e a fé que transborda. O mundo é um grande campo de batalha entre o ideal e o real — e nós, cronistas de carne e osso, seguimos tentando narrar essa partida infinita onde o placar muda a cada suspiro.
Porque o Brasil é isso, meu caro leitor: um dragão que sonha em ser fênix, um porto que espera o futuro ancorar, um voto que quer virar esperança — e um povo que, entre risos e lágrimas, continua acreditando que amanhã será gol.




