CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 29 de outubro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O dia amanheceu em Sergipe com cheiro de estrada e gosto de cansaço. São tantos os que viajam entre cidades para trabalhar que parece que o estado virou uma grande rodovia — um corredor humano de sonhos empacotados em marmitas e mochilas. O trabalhador sergipano acorda antes do sol, conversa com o vento e dorme debruçado no volante da esperança. Cada quilômetro é uma prece engasgada entre o “vai dar certo” e o “até quando?”.
Enquanto o povo se desloca, o governo se distancia. Lá em Brasília, os deputados fizeram da tesoura um instrumento musical: cortam benefícios como quem toca uma flauta desafinada no teatro da economia. O Seguro Defeso virou um peixe sem água, o auxílio-doença perdeu o ar, e a previdência pública tenta respirar num pulmão artificial. É o espetáculo do corte — um balé de austeridade dançando sobre o tapete da necessidade. No palco, 286 votos a favor; na plateia, milhões de trabalhadores contra — mas quem escuta o murmúrio do povo quando o som do poder é tão alto?
E, enquanto o Brasil corta direitos, o vírus corta confiança. A vacina contra a Covid-19, outrora símbolo de esperança, hoje amarga esquecimento nos refrigeradores dos postos de saúde. Ela, que já foi estrela, agora é figurante em um país que prefere o risco à prevenção, o boato à ciência. A seringa virou símbolo de desinteresse, e o vírus, rindo de canto de boca, voltou a ensaiar seu espetáculo de reaparição.
Lá fora, em um palco maior, Trump e Xi Jinping fizeram as pazes comerciais na Coreia do Sul. Um aperto de mão aqui, um corte de tarifa ali, e o mundo finge que a economia é uma novela romântica: o empresário americano e o mandarim chinês se olham nos olhos, e o fentanil sorri entre as entrelinhas. Reduziram tarifas, aumentaram discursos — e o planeta segue como uma empresa gigante administrada por egos de concreto.
O contraste é cruel: enquanto os poderosos negociam terras raras, o povo aqui negocia o almoço; enquanto eles reduzem taxas, nós aumentamos o número de prestações. É o mesmo planeta, mas em órbitas diferentes — uns em jatinhos supersônicos, outros em ônibus quebrados de linha intermunicipal.
Sergipe, nesse tabuleiro global, parece um ponto de luz piscando em meio à tempestade elétrica. Gente que acorda cedo, sonha alto e ganha pouco. Gente que, mesmo sem seguro e sem descanso, ainda encontra tempo para sorrir no meio da fila do ônibus. É nessa resistência miúda que mora a grandeza do povo — o mesmo povo que Brasília esquece, mas que o sol insiste em iluminar.
E assim, o 29 de outubro termina: com o país entre cortes e descuidos, e o mundo entre acordos e farsas. No fundo, o Brasil segue sendo essa crônica de ironias — onde a esperança trabalha em outra cidade, o direito pega carona na boleia, e a fé vai a pé.




