CRÔNICA

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 21 de outubro de 2025

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 21 de outubro de 2025
Publicado em 22/10/2025 às 15:05

Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O dia 21 de outubro amanheceu tropeçando em si mesmo. O sol levantou com cara de quem ainda estava de ressaca do fim de semana e, lá na Barra dos Coqueiros, quem resolveu ir à farmácia não foi o balconista, nem o cliente — foi um cavalo. Sim, um legítimo corcel da vida real, desses que não pedem senha nem CPF na nota. Entrou como quem busca um remédio para o tédio da humanidade. Talvez procurasse um antiestresse equino ou um xarope contra o desrespeito humano aos animais.

As câmeras registraram o momento exato em que o animal virou manchete: o cavalo que invadiu a farmácia — uma metáfora viva do Brasil contemporâneo. Num país onde políticos galopam sobre a lógica, um cavalo na farmácia já não é surpresa, é sintoma. Ele, ao menos, entrou de cabeça erguida, sem máscaras, sem fake news no casco e sem querer derrubar a democracia com relinchos virtuais.

Enquanto o cavalo buscava calmantes, lá em Brasília o Supremo Tribunal Federal recitava um outro tipo de bula: a da Justiça. Formou-se maioria para condenar os fabricantes da mentira — os alquimistas digitais que transformam boatos em veneno. Alexandre de Moraes, Zanin e Cármen Lúcia afiaram as penas e votaram pela cura da infecção das fake news. Fux, sempre cretino, preferiu o “não”.

No mesmo Congresso onde o ar cheira a mofo e ambição, os deputados aprovaram a urgência para impedir a cobrança da bagagem de mão. O povo aplaudiu, cansado de pagar caro para levar suas próprias esperanças no bagageiro. No Brasil, até o direito de carregar o sonho virou produto tarifado. Se continuar assim, logo cobrarão taxa para respirar dentro do avião. E o pobre, que não voa nem com fé, segue assistindo ao espetáculo pela janela do ônibus.

E enquanto Brasília discute malas e bagagens, o Peru, vizinho de alma latino-americana, declara estado de emergência em Lima. A capital ferve, o povo sangra, e o rapper Trvko vira símbolo de uma rima interrompida pela bala. A América do Sul, essa senhora de vestidos rasgados e coração em ferida, segue tentando dançar no meio do fogo. Um continente que ora canta, ora chora — e sempre apanha do próprio destino.

O cavalo da Barra, no fim das contas, foi o mais lúcido dos personagens do dia. Entrou na farmácia como quem diz: “o mundo precisa se medicar”. Talvez tenha saído de lá decepcionado — afinal, ainda não inventaram comprimido para a ignorância, pomada para a hipocrisia nem soro antioportunismo.

O Brasil galopa entre ironias, relincha esperanças e tropeça nas próprias rédeas. No trote das manchetes, o riso se mistura à dor, e a crônica vira espelho: cada um de nós carrega um pouco de cavalo, um pouco de bagagem e um tanto de ilusão — tentando não cair da sela da realidade.

Entre o cavalo filósofo, o Supremo justiceiro, o Congresso bagageiro e o Peru em chamas, o mundo parece um picadeiro sem tenda. Mas ainda há poesia nas ferraduras da esperança.