Crônica
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 15 de outubro de 2025 — Dia do Professor
Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O amanhecer desta quarta-feira veio com cheiro de giz e café requentado — o perfume oficial do magistério. O sol riscou o céu como quem desenha no quadro-negro da vida a lição de sempre: ensinar é acender velas num vendaval e ainda sorrir. Hoje, 15 de outubro, o Brasil lembrou que existe uma categoria que vive entre provas e promessas — o professor —, esse Dom Quixote de quadro e pincel, lutando contra moinhos de ignorância que nunca param de girar.
Enquanto o presidente Lula discursava, dizendo que “investir em educação é uma decisão política recente”, o país inteiro entendeu o subtexto: é recente mesmo, quase um bebê engatinhando entre discursos e orçamentos. A tal Carteira Nacional Docente foi anunciada com pompa — descontos em cinema, shows e hotéis. Um mimo simbólico, como dar um curativo colorido a quem levou um tombo na alma. Bonito gesto, sim, mas o professor sonha mais com um salário digno do que com meia-entrada. Afinal, desconto não paga boleto, e poesia não enche geladeira.
Em Sergipe, o Ciosp implanta novo sistema de ligações. Talvez, um dia, também inventem um sistema de “ouvir professores”, porque esse sim anda congestionado. O telefone da educação toca há séculos e ninguém atende. Mas pelo menos as viagens para o estado aumentaram 12%. Talvez venham turistas estudar o milagre: como o sergipano ensina tanto com tão pouco.
No entanto, o noticiário, sempre com sua lupa de tragicomédia, trouxe uma pérola digna de novela: funcionários de um restaurante foram indiciados por gastar mais de R$ 16 mil em um cartão esquecido por um cliente. É a versão moderna da parábola do filho pródigo com cartão de crédito e delivery de luxo. Compraram o que quiseram — talvez até dignidade, se tivesse em estoque. O capitalismo é tão generoso que permite que a esperteza vista terno e sorria para a câmera antes de ser indiciada.
E do outro lado do mapa, Donald Trump, o mágico do caos, reaparece com sua varinha de pólvora, dizendo que autorizou operações secretas da CIA na Venezuela. É o tipo de notícia que parece piada, mas é só o velho roteiro de sempre: enquanto uns lutam para ensinar o abecedário da paz, outros brincam de soletrar guerra. A ironia é que, em sala de aula, os professores ensinam “respeito às diferenças”; já certos líderes mundiais preferem ensinar “diferença de poder”.
Mas voltemos à poesia do giz. O professor, esse operário da esperança, segue riscando no quadro da vida palavras que o tempo tenta apagar. Entre greves e risadas, provas e promessas, ele continua. Porque ensinar é um ato de teimosia sagrada — é acreditar que a semente brota mesmo quando o solo é ingrato.
Hoje, o Brasil lembrou dos professores. Amanhã, talvez os esqueça. Mas enquanto houver um caderno, um aluno curioso e um coração inquieto, haverá sempre uma aula acontecendo — mesmo que o mundo inteiro esteja em recesso.
O professor é aquele que planta estrelas em céus nublados, escreve sonhos em cadernos puídos e transforma a vida em lição. E, se algum dia inventarem uma carteira que dê desconto em esperança, ela será, por justiça, vitalícia.




