CRÔNICA

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 14 de outubro de 2025

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 14 de outubro de 2025
Publicado em 15/10/2025 às 7:58

Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O sol nasceu curioso, espiando pelas frestas do horizonte, como quem quer saber o que ainda resta de bom neste mundo em liquidação. Sergipe acordou com uma notícia peculiar: chegaram 16 ampolas de antídoto contra intoxicação por metanol. E, veja só, não há nenhum caso registrado. É como receber guarda-chuva num deserto ou colete salva-vidas no sertão. Um gesto de zelo ou premonição burocrática? Talvez o Ministério da Saúde tenha ouvido a alma do Brasil tossir e decidiu mandar o remédio antes do veneno.

As ampolas, tímidas e transparentes, repousam em algum refrigerador oficial, sonhando com o dia em que salvarão alguém — ou talvez torcendo para continuar esquecidas, eternamente virgens de tragédia. É a esperança engarrafada, guardada com o selo da precaução. Um país que nunca aprende a prevenir, agora coleciona antídotos sem veneno.

Lá fora, o mundo continua girando em descompasso. O chanceler Mauro Vieira embarca para os Estados Unidos, onde tentará negociar com Marco Rubio o fim do “tarifaço”, essa guerra comercial que soa como briga de vizinhos ricos discutindo os muros das casas.

E no meio desse teatro internacional, surge a cereja da ironia global: jornais e TVs dos Estados Unidos se rebelam contra a censura do governo Trump, que ressuscitou o velho fantasma do silêncio forçado. Até a Fox News, velha dama do conservadorismo, assinou a carta em defesa da liberdade de imprensa. É como ver o lobo recitando versos sobre a paz no curral. Ironias da história: o país que vendia democracia a prestações agora tenta censurar o próprio espelho.

Mas voltemos a Sergipe, onde as 16 ampolas dormem geladas, esperando o toque de um milagre ou o descuido de um laboratório. Talvez o antídoto não seja só contra o metanol — talvez cure também a apatia, o cinismo e a ressaca moral de um povo cansado de esperar o remédio certo para o veneno errado.

Porque o Brasil, esse paciente teimoso, vive há séculos intoxicado: de corrupção, de descuido, de falsas esperanças. O metanol é só metáfora — a verdadeira intoxicação vem daquilo que bebemos todo dia: notícias adulteradas, políticas com gosto de álcool barato e promessas que evaporam antes de agir.

E assim, entre antídotos sem vítimas, ministros viajantes e repórteres censurados, a terça-feira passou — como uma ampola esquecida no tempo, transparente, silenciosa e esperando o dia em que alguém, finalmente, cure o país de si mesmo.

Porque, no fim das contas, o Brasil não precisa só de fomepizol — precisa de um remédio que devolva o gosto pela verdade e a sobriedade de sonhar.