CRÔNICA
Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 14 de outubro de 2025
Por Antônio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O sol nasceu curioso, espiando pelas frestas do horizonte, como quem quer saber o que ainda resta de bom neste mundo em liquidação. Sergipe acordou com uma notícia peculiar: chegaram 16 ampolas de antídoto contra intoxicação por metanol. E, veja só, não há nenhum caso registrado. É como receber guarda-chuva num deserto ou colete salva-vidas no sertão. Um gesto de zelo ou premonição burocrática? Talvez o Ministério da Saúde tenha ouvido a alma do Brasil tossir e decidiu mandar o remédio antes do veneno.
As ampolas, tímidas e transparentes, repousam em algum refrigerador oficial, sonhando com o dia em que salvarão alguém — ou talvez torcendo para continuar esquecidas, eternamente virgens de tragédia. É a esperança engarrafada, guardada com o selo da precaução. Um país que nunca aprende a prevenir, agora coleciona antídotos sem veneno.
Lá fora, o mundo continua girando em descompasso. O chanceler Mauro Vieira embarca para os Estados Unidos, onde tentará negociar com Marco Rubio o fim do “tarifaço”, essa guerra comercial que soa como briga de vizinhos ricos discutindo os muros das casas.
E no meio desse teatro internacional, surge a cereja da ironia global: jornais e TVs dos Estados Unidos se rebelam contra a censura do governo Trump, que ressuscitou o velho fantasma do silêncio forçado. Até a Fox News, velha dama do conservadorismo, assinou a carta em defesa da liberdade de imprensa. É como ver o lobo recitando versos sobre a paz no curral. Ironias da história: o país que vendia democracia a prestações agora tenta censurar o próprio espelho.
Mas voltemos a Sergipe, onde as 16 ampolas dormem geladas, esperando o toque de um milagre ou o descuido de um laboratório. Talvez o antídoto não seja só contra o metanol — talvez cure também a apatia, o cinismo e a ressaca moral de um povo cansado de esperar o remédio certo para o veneno errado.
Porque o Brasil, esse paciente teimoso, vive há séculos intoxicado: de corrupção, de descuido, de falsas esperanças. O metanol é só metáfora — a verdadeira intoxicação vem daquilo que bebemos todo dia: notícias adulteradas, políticas com gosto de álcool barato e promessas que evaporam antes de agir.
E assim, entre antídotos sem vítimas, ministros viajantes e repórteres censurados, a terça-feira passou — como uma ampola esquecida no tempo, transparente, silenciosa e esperando o dia em que alguém, finalmente, cure o país de si mesmo.
Porque, no fim das contas, o Brasil não precisa só de fomepizol — precisa de um remédio que devolva o gosto pela verdade e a sobriedade de sonhar.




