CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de outubro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O mundo acordou com o cheiro de trégua no ar — aquele perfume raro, meio floral, meio pólvora vencida. Israel e Hamas, esses velhos vizinhos de inimizade hereditária, decidiram — pasme! — dar férias à guerra. Depois de tanto fogo cruzado, resolveram apagar as chamas com um copo d’água da esperança. É como ver dois vulcões combinando um piquenique no meio da cratera.
O cessar-fogo está prometido para nascer em até 24 horas, tempo suficiente para o mundo prender o fôlego e o sol, curioso, espiar por entre as nuvens: “será que agora vai?”. Dizem que os reféns serão libertados em 72 horas — três voltas da Terra, três suspiros da humanidade, três dias para a dor abrir a janela e deixar entrar um pouco de paz.
Mas a paz, essa moça caprichosa, vive de salto alto em terreno minado. Às vezes chega, mas tropeça. Outras, finge que vem e manda recado por pombo-correio. O mundo observa, desconfiado, como quem vê promessa de político em época de eleição. E a Terra, cansada de servir de palco a tanto drama, rola em silêncio, esperando que desta vez o roteiro seja outro.
Enquanto o Oriente Médio ensaia o fim de uma ópera trágica, Aracaju pulsa como coração de criança às vésperas do Dia das Crianças. As lojas de brinquedos viraram colmeias de alegria: mães, pais, tios e avós disputam bonecas e carrinhos como se estivessem em um leilão de sorrisos. É a economia do afeto, onde o amor se embala em papel colorido e fita de cetim. A cidade ganha cheiro de plástico novo, risadas ecoam nos corredores e os olhos miúdos brilham como vitrines de esperança.
E no palco da República das Togas, um ator se despede. Luís Roberto Barroso, o ministro-poeta, pendura a beca e deixa o Supremo antes da hora. Poderia ficar até os 75, mas escolheu sair aos 67 — quem diria, um homem que entendeu que o tempo não se discute, apenas se respeita.
Barroso sai como quem encerra um espetáculo difícil, cheio de aplausos, vaias e monólogos filosóficos. Foi relator de causas que dividiram o país, enfrentou pandemias jurídicas e políticas, e agora deixa o martelo descansar. Talvez vá escrever memórias, talvez plantar jabuticabeiras — afinal, a Constituição também precisa de sombra e fruta doce.
Mas que ironia deliciosa: enquanto o mundo tenta costurar a paz entre nações, aqui dentro alguém tenta costurar a paz com o próprio tempo. O ministro larga o cargo, o povo larga o cartão de crédito nas lojas de brinquedo, e o planeta larga as armas — ao menos por um instante. Tudo parece girar em torno de uma palavra que não se compra nem se decreta: descanso.
Quem diria que a paz mundial e a aposentadoria de um ministro poderiam rimar? O mundo é uma criança cansada brincando de ser adulto. E talvez o Dia das Crianças nos lembre disso — que a paz, no fundo, é um brinquedo simples: basta não quebrar o do outro.
E assim termina o noticiário do dia — entre o barulho dos mísseis que se calam e o tilintar dos brinquedos nas prateleiras. Que cada um encontre, no meio do caos, o seu pedacinho de paz embrulhado em fita azul-celeste.




