CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de outubro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de outubro de 2025
Publicado em 10/10/2025 às 7:23

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O mundo acordou com o cheiro de trégua no ar — aquele perfume raro, meio floral, meio pólvora vencida. Israel e Hamas, esses velhos vizinhos de inimizade hereditária, decidiram — pasme! — dar férias à guerra. Depois de tanto fogo cruzado, resolveram apagar as chamas com um copo d’água da esperança. É como ver dois vulcões combinando um piquenique no meio da cratera.

O cessar-fogo está prometido para nascer em até 24 horas, tempo suficiente para o mundo prender o fôlego e o sol, curioso, espiar por entre as nuvens: “será que agora vai?”. Dizem que os reféns serão libertados em 72 horas — três voltas da Terra, três suspiros da humanidade, três dias para a dor abrir a janela e deixar entrar um pouco de paz.

Mas a paz, essa moça caprichosa, vive de salto alto em terreno minado. Às vezes chega, mas tropeça. Outras, finge que vem e manda recado por pombo-correio. O mundo observa, desconfiado, como quem vê promessa de político em época de eleição. E a Terra, cansada de servir de palco a tanto drama, rola em silêncio, esperando que desta vez o roteiro seja outro.

Enquanto o Oriente Médio ensaia o fim de uma ópera trágica, Aracaju pulsa como coração de criança às vésperas do Dia das Crianças. As lojas de brinquedos viraram colmeias de alegria: mães, pais, tios e avós disputam bonecas e carrinhos como se estivessem em um leilão de sorrisos. É a economia do afeto, onde o amor se embala em papel colorido e fita de cetim. A cidade ganha cheiro de plástico novo, risadas ecoam nos corredores e os olhos miúdos brilham como vitrines de esperança.

E no palco da República das Togas, um ator se despede. Luís Roberto Barroso, o ministro-poeta, pendura a beca e deixa o Supremo antes da hora. Poderia ficar até os 75, mas escolheu sair aos 67 — quem diria, um homem que entendeu que o tempo não se discute, apenas se respeita.

Barroso sai como quem encerra um espetáculo difícil, cheio de aplausos, vaias e monólogos filosóficos. Foi relator de causas que dividiram o país, enfrentou pandemias jurídicas e políticas, e agora deixa o martelo descansar. Talvez vá escrever memórias, talvez plantar jabuticabeiras — afinal, a Constituição também precisa de sombra e fruta doce.

Mas que ironia deliciosa: enquanto o mundo tenta costurar a paz entre nações, aqui dentro alguém tenta costurar a paz com o próprio tempo. O ministro larga o cargo, o povo larga o cartão de crédito nas lojas de brinquedo, e o planeta larga as armas — ao menos por um instante. Tudo parece girar em torno de uma palavra que não se compra nem se decreta: descanso.

Quem diria que a paz mundial e a aposentadoria de um ministro poderiam rimar? O mundo é uma criança cansada brincando de ser adulto. E talvez o Dia das Crianças nos lembre disso — que a paz, no fundo, é um brinquedo simples: basta não quebrar o do outro.

E assim termina o noticiário do dia — entre o barulho dos mísseis que se calam e o tilintar dos brinquedos nas prateleiras. Que cada um encontre, no meio do caos, o seu pedacinho de paz embrulhado em fita azul-celeste.