CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de outubro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de outubro de 2025
Publicado em 06/10/2025 às 3:46

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O domingo amanheceu com o gosto triste. Japaratuba recebeu a notícia da partida de Valter Teles dos Reis, o barbeiro da minha infância. O senhor Valter, artesão das tesouras, cirurgião dos fios rebeldes, maestro da navalha que dançava no couro cabeludo como um violino sobre cordas tensas. Em sua cadeira de barbeiro, meninos viravam homens em cortes e histórias. Hoje, Japaratuba fica um pouco mais despenteada sem o toque de suas mãos. A saudade corta mais fundo do que a lâmina que ele tão bem manejava. Nossos sentimentos para toda família.

Mas o mundo, sempre impiedoso em sua pressa, não para para pentear o luto. Em Fortaleza, o Ibama sacou sua rede e, num passe de mágica, prendeu traficantes de animais exóticos. Pobres aves, empacotadas em mochilas, transformadas em contrabando como se fossem pacotes de biscoito vencido na prateleira do crime. Metade delas morre no caminho, como se a liberdade tivesse validade curta quando atravessa fronteiras clandestinas. O canto das aves se converteu em grito engarrafado. E nós, os humanos que nos julgamos senhores da criação, seguimos na toada de caçadores de arco-íris, sem perceber que aprisionamos o próprio futuro em gaiolas de ferro.

Enquanto isso, no teto do mundo, o Everest, aquele gigante coberto de neve que respira nuvens e sopra tempestades, resolveu mostrar quem manda. Uma nevasca varreu o lado tibetano como quem passa a borracha numa lousa cheia de planos turísticos. Centenas de pessoas foram resgatadas, outras tantas ficaram soterradas sob o manto branco da montanha que não gosta de ser tratada como ponto de selfie. A natureza, cansada da arrogância dos mortais que a escalam como se fossem donos do mundo, gritou: “Aqui quem manda sou eu!”. E seu grito veio em forma de gelo, vento e silêncio.

O domingo teve três temperaturas distintas: o frio cortante da morte de Valter, o calor sufocante da ganância que aprisiona pássaros, e a geada cruel que soterra sonhos no Himalaia. O noticiário não é um telejornal, é um banquete de metáforas servido sem guardanapos: a vida é o prato principal, o luto é a sobremesa amarga, e a ironia, esse tempero ácido, nunca falta.

Ah, caro leitor, como é frágil esse fio que nos costura aos dias! Um barbeiro que se vai, aves que são condenadas a morrer antes de voar, turistas que quase viram estátuas de gelo na escadaria dos deuses. A vida é um salão de barbeiro: às vezes saímos de lá com corte novo e sorriso no rosto; outras vezes, percebemos que a lâmina do destino não avisa antes de cortar.

E o domingo, como sempre, se despede com sua ironia cruel: amanhã já é segunda, e ninguém vai perguntar se o coração da gente está pronto para recomeçar.