CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 25 de Setembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia amanheceu com o vento soprando metáforas: vendaval avisado pelo Inmet, mas parecia mais um suspiro cansado da natureza, lembrando ao sergipano que até a brisa tem seus surtos de fúria. Quarenta, cinquenta, sessenta quilômetros por hora — não importa a velocidade, o recado era claro: “segurem os chapéus, porque até o ar resolveu protestar contra o caos humano.”
Enquanto isso, em Aracaju, a Justiça liberou mais de R$ 220 milhões da concessão da Deso. Dinheiro guardado como um tesouro sob as chaves da burocracia, esperando a contagem da população como se os números do IBGE fossem dados lançados por deuses em um tabuleiro de destino. É como se dissesse: “a vida de vocês só vale se couber em planilha, se for catalogada, se caber no quadrado da estatística.” Aracaju sorri com cifrões nos olhos, enquanto São Cristóvão suspira com o amargor de quem foi deixado com a conta.
No Ceará, o riso morreu na porta da escola. Sobral virou sinônimo de silêncio interrompido por tiros, e a juventude, que deveria desenhar sonhos no pátio, acabou manchada pelo vermelho da violência. Dois meninos, vidas inteiras pela frente, foram ceifados como se a morte tivesse pressa. O “pânico generalizado” que rodou a imprensa internacional é só a forma elegante de dizer que a morte virou manchete e o luto virou estatística. E nós, leitores, choramos com letras frias — lágrimas de jornal, soluços digitais.
No palco da política, o ministro do Trabalho anunciou que o governo apoia o fim da escala 6×1. Bonito discurso: libertar o trabalhador da gaiola de seis dias para dar-lhe asas de descanso. Mas logo vem o adendo: é preciso “pressionar o Congresso”. O ministro avisa: se o Legislativo ficar “livre, leve e solto”, quem paga o pato é o trabalhador. Ora, e quando é que ele não paga? O povo já nasceu no fiado, mora no boleto e sonha em parcelas de 48 vezes sem juros.
Do outro lado do mundo, a Microsoft resolveu vestir toga e decretar sentença: desligou os serviços usados por Israel para vigiar Gaza e Cisjordânia. O titã da tecnologia descobriu subitamente que tem “princípios”. Ora, que ironia doce e tardia! Como se o código binário tivesse coração, como se a nuvem digital resolvesse chover ética. Enquanto isso, em Gaza, o sol continua a nascer sobre ruínas, e a nuvem, lá, não é de dados — é de poeira, fumaça e gritos calados.
E eu, aqui de Japaratuba, tento juntar esses fragmentos de mundo como quem monta um vitral estilhaçado. Vendavais que sopram medos, milhões que circulam como mariposas em torno do fogo, ministros que falam em nome da justiça, jovens tombados na calçada de uma escola, gigantes digitais que brincam de moralidade. O planeta gira bêbado, tropeçando entre esperanças e tragédias.
No fim, a pergunta martela: estamos apenas espectadores da tragédia global ou cúmplices silenciosos desse espetáculo grotesco? Talvez sejamos ambos — palhaços e plateia, rindo nervosamente enquanto o circo pega fogo.
E o vento, lá fora, insiste em bater nas janelas, como se fosse a própria vida sussurrando: “Ouçam-me, porque o tempo é curto, e a mudança, urgente.”




