CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de Setembro de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de Setembro de 2025
Publicado em 22/09/2025 às 4:03

O domingo amanheceu como um tamborim desafinado, batucando protestos nas ruas do Brasil. Em Aracaju, bandeiras vermelhas dançavam com o vento, como se fossem aves tentando espantar os corvos da chamada PEC da Blindagem, essa obra-prima do cinismo legislativo. Parlamentares querendo vestir armaduras de ouro contra o fio da justiça, como cavaleiros medievais que temem mais o martelo do STF do que o próprio juízo final. E o povo, cansado de ser plateia do circo, resolveu entrar na arena: gritava, cantava, chorava e ria da própria tragédia.

Na Avenida Paulista, 42,4 mil vozes — calculadas com a precisão de um cirurgião, 37 mil para os pessimistas, 47 mil para os otimistas — pulsavam como um coração inflamado. A multidão era mar e deserto ao mesmo tempo: mar que afoga a arrogância política, deserto que denuncia a secura de dignidade em Brasília. Ah, a ironia! Precisamos de cientistas, ONGs e matemáticos para contar gente, quando na verdade bastava contar as feridas abertas nesse país.

Enquanto os gritos ecoavam, Lula embarcava para os EUA. O presidente, que carrega no bolso as dores de um “tarifaço” e no discurso as promessas de soberania, irá abrir o discurso na ONU como quem abre uma garrafa de esperança. Falará de democracia, guerras, meio ambiente — ou, quem sabe, de como o Brasil consegue ter sol, vento e água de sobra, mas não tem sistema elétrico para engolir tanta fartura. A Aneel, desesperada, já pensa em protocolos: excesso de energia verde, mas o risco é de um apagão verde, um paradoxo que até Kafka pediria licença para anotar. Produzimos luz, mas tropeçamos na própria claridade.

Do outro lado do planeta, o tufão Ragasa soprava sua fúria sobre Hong Kong. Aeroporto fechado, 500 voos suspensos, 36 horas de caos. O vento gigante, em sua arrogância natural, mostrava aos humanos que de nada adianta blindar parlamentares se a natureza resolve votar contra. Ragasa não precisa de PEC nem de anistia: ele assina decretos com rajadas de 200 km/h e veta sonhos de viagem com uma baforada.

O dia 21 de setembro foi um poema de contrastes: no Brasil, o povo tentando empurrar a história com gritos; no mundo, o clima nos lembrando que não adianta planejar voos se esquecemos de respeitar os ventos. A democracia, essa senhora cansada, tentava ajeitar sua saia no meio da praça, enquanto os políticos queriam arrancar-lhe o véu para não serem reconhecidos.

E eu, humilde cronista, termino confessando: a cada protesto, sinto que somos como lampiões na ventania — trememos, apagamos, reacendemos. Mas seguimos, porque no fundo sabemos que a noite, por mais longa que seja, não é eterna.