CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 17 de Setembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia amanheceu com bisturis mais afiados que promessas de político em palanque. Sergipe acordou cirúrgico, inaugurando uma técnica que, sem silicone, devolve às mulheres não apenas as mamas, mas a dignidade moldada na própria carne. É como se o corpo, em gesto de teimosia poética, dissesse: “Eu me reconstruo com aquilo que sou, não com aquilo que tentam me impor.” A ciência, dessa vez, foi artista: esculpiu esperança com músculo e gordura, e assinou a obra sem plástico importado. Um milagre laico, onde cada sutura é verso, e cada cicatriz, uma estrofe de resistência.
Enquanto a medicina costurava vidas, a política, como sempre, descosturava a lógica. No grande teatro da Câmara, Crivella subiu ao palco com seu projeto de anistia para manifestações. O espetáculo foi grotesco: 311 deputados aplaudindo a pressa, 163 vaiando em silêncio e 7 indecisos, como figurantes que perderam a deixa. Querem anistiar aqueles que confundiram democracia com motim, que trocaram a urna por barricada, e a Constituição por meme de WhatsApp. É a velha farsa da política brasileira: quem gritou “intervenção” agora pode ganhar absolvição. A anistia virou batom barato para esconder a verruga da história, e a urgência votada é mais uma maquiagem mal feita em rosto cansado de tantas farsas.
Do outro lado do mapa, a Venezuela afinava seus canhões como se fossem trompetes de uma orquestra desafinada. Em La Orchila, navios de guerra e embarcações anfíbias faziam piruetas no Caribe, exibidos na TV estatal como desfile de escola de samba militar. Maduro, maestro de banda marcial que só toca marchas fúnebres, levanta a batuta contra os EUA, num espetáculo de força que mais parece teatro de marionetes com cordas visíveis. O povo, plateia silenciosa, assiste a exercícios bélicos enquanto o arroz e o feijão continuam exilados das panelas.
Entre bisturis, votos e canhões, o Brasil continua sua coreografia tropical: ora samba no hospital, ora choro na Câmara, ora frevo nas fronteiras do Caribe. O país é mestre em dançar em cima da corda bamba, com ares de equilibrista bêbado que jura estar firme. E nós, espectadores, seguimos batendo palmas com mãos calejadas de tanto aplaudir milagres pequenos e vaiar tragédias imensas.
Talvez a lição do dia seja esta: quando a ciência opera com carne e coragem, há futuro. Quando a política opera com pressa e esquecimento, há farsas. E quando os exércitos marcham em ilhas turísticas, há medo disfarçado de patriotismo. No fim, resta-nos olhar para o corpo reconstruído daquela paciente sergipana e acreditar: se o corpo se reinventa, por que a nação não poderia também cicatrizar suas feridas sem próteses ideológicas?
O bisturi da ciência mostrou que a vida pode renascer do próprio tecido. Quem sabe, um dia, o bisturi da história corte o tumor da impunidade e reconstrua o peito do Brasil — sem silicone político, apenas com a carne verdadeira do povo.




