CONTO

O Menino que Adorava Olhar para o Horizonte

O Menino que Adorava Olhar para o Horizonte
Publicado em 16/09/2025 às 2:22

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

Havia um menino que nunca se contentava em brincar apenas com bolinhas de gude, carrinhos de madeira ou pipas que dançavam no céu. Seu brinquedo favorito era o horizonte. Ele se sentava na beira da estrada de terra, na ponta do quintal ou à margem do rio, e ficava ali, olhos espichados como quem procura um segredo.

Para os adultos, era perda de tempo. “Esse menino vive no mundo da lua!”, resmungava o avô, ajeitando o chapéu de palha. Mas o menino sabia: o horizonte era uma porta invisível. Bastava olhar com calma que ele se transformava em estrada, mar, muralha ou até mesmo em palco.

— O que você vê daí? — perguntava a mãe, curiosa.
— Vejo o sol brincando de esconde-esconde com as nuvens. Vejo o futuro chegando de mansinho, feito andarilho cansado. Vejo até as perguntas que ainda não inventaram resposta — respondia ele, com uma seriedade que só as crianças conseguem carregar sem peso.

Certo dia, alguém lhe disse que o horizonte não existe, que é apenas ilusão: o encontro falso entre céu e terra. O menino, porém, não acreditou. Sorriu com os dentes de leite e retrucou:
— Se fosse ilusão, não dava tanta vontade de correr até lá.

E assim ele cresceu, mas nunca deixou de olhar para longe. Virou homem, e ainda assim sentava-se diante do mar, da estrada, do campo aberto, e deixava os olhos atravessarem distâncias. Era como se o horizonte fosse um espelho: cada vez que olhava, via a si mesmo diferente — ora criança, ora sonhador, ora velho sábio que ainda aprendia.

O menino que adorava olhar para o horizonte nunca se perdeu da vida, porque aprendeu cedo que, mais importante do que chegar, é ter sempre para onde olhar.