CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 07 de Setembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O 7 de setembro acordou como uma flâmula colorida, mas ao invés de tremular leve ao vento, veio pesado, encharcado de contradições. No céu azul de Japaratuba, o verde da esperança marchava ao lado do branco da paz, entre tambores da Euterpe e passos ensaiados das escolas. As crianças e adolescentes desfilavam como se fossem pequenas sementes carregando a pátria no peito. Era poesia de rua, suor e civismo bordados em cada estandarte. Mas bastava virar a esquina da história para sentir o travo amargo da ironia: enquanto alguns batiam continência, outros gritavam do lado de fora — e não era hino, era grito.
O Grito dos Excluídos ecoou em Aracaju como um trovão dentro de uma igreja vazia. Manifestantes com vozes gastas de tanto repetir “não” marcharam contra a anistia aos golpistas. É curioso: no mesmo compasso em que bandas afinam clarinetes para a liberdade, políticos desafinam o coro da justiça tentando perdoar quem quis afundar o barco do país. Patriotas de farda e patriotas de cartaz se cruzaram como personagens de um teatro tragicômico, um palco dividido entre a Esplanada e as esquinas da capital sergipana.
Enquanto isso, em Brasília, o desfile virou vitrine de metáforas: a Esquadrilha da Fumaça pintando sonhos no céu e tanques mostrando músculos enferrujados. No meio da coreografia cívica, Lula chegou em carro aberto, como se fosse maestro de uma orquestra que alterna Beethoven com marcha militar. O bandeirão tremulava soberania.
E não é que até as big techs entraram na avenida da Independência? O governo promete “adultizar” o ambiente digital, como se a internet fosse uma criança mimada que precisa finalmente largar a chupeta dos algoritmos. O senador Alessandro Vieira virou pediatra da rede, prescrevendo leis para curar febres de fake news. Mas quem garante que o Congresso, esse hospital das almas doentes, não vai trocar o remédio por placebo?
Longe dos clarins e bandeiras, o mundo mostrava a face mais cruel. A ONU avisou que a fome caminha descalça por Gaza, enquanto bombas caem como granizo de ódio. Que independência pode ser comemorada se a boca de uma criança palestina conhece mais pólvora do que pão? O estômago vazio é o maior cárcere do planeta — e não adianta desfile militar, bandeira hasteada ou discurso inflamado: a liberdade não mora onde o prato está vazio.
E eu, confesso, terminei o dia dividido entre lágrimas e risos. Ri das ironias da política que transforma um desfile em palanque. Ri do verde e amarelo usado como maquiagem de quem já traiu a pátria mais vezes do que tocou o hino. Mas chorei quando percebi que, apesar dos clarins e apitos, continuamos prisioneiros de nossas próprias correntes invisíveis: exclusão, fome, injustiça.
No fim, 7 de setembro não é apenas um feriado: é um espelho. Um espelho trincado, que devolve ao povo uma imagem distorcida de sua própria liberdade. E talvez a maior independência que ainda precisamos conquistar seja essa: a de aprender a olhar no espelho sem nos enganarmos com os fogos de artifício.
Porque, enquanto o céu se pinta de fumaça colorida, a vida segue pedindo um pão simples, uma justiça real, uma pátria que não precise mais gritar para ser ouvida.




