CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 06 de Setembro de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O 6 de setembro teve gosto de incenso e pólvora, um misto de luto e trincheira, como se a vida tivesse resolvido virar missa campal no altar da História.
Em Sergipe, o relógio parou para chorar a morte de padre Raul Bonfim, aos 88 anos. Sessenta anos de sacerdócio não são apenas anos: são quilômetros de fé percorridos de batina, são ruas inteiras de procissões, terços rezados como quem costura esperanças na beira do abismo. A partida dele é como se o sino da igreja tivesse sido roubado pelo silêncio. Capelas inteiras hoje parecem órfãs, e até os bancos de madeira devem ranger um “amém” triste, ecoando o vazio deixado por aquele que tantas vezes traduziu Deus em palavras simples.
Enquanto isso, em Brasília, Lula resolveu vestir a toga do verbo inflamado e lançar relâmpagos contra aqueles que, segundo ele, “traem a pátria”. Foi quase um sermão laico em praça pública: de um lado, a defesa do PIX e da soberania brasileira; do outro, as sombras de políticos que brincam de Judas com 30 moedas digitais nas mãos. O presidente falou como quem sopra brasas num fogaréu, lembrando a todos que a democracia não aceita manual de instruções importado dos Estados Unidos. O detalhe é que, enquanto ele fala de regulamentar redes, a internet continua sendo aquela praça de feira onde cada um grita sua verdade como se fosse vendedor de alho — com cheiro forte, mas nem sempre útil.
E, do outro lado da fronteira, o show de horrores ganha dublagem hollywoodiana. Donald Trump, presidente dos EUA, ameaçou Chicago com uma força “apocalíptica”, citando o filme Apocalypse Now. Ironia cruel: um líder mundial usando o cinema da guerra para dirigir a tragédia da vida real. O governador de Illinois respondeu chamando-o de aspirante a ditador. E cá estamos nós, assistindo ao espetáculo como plateia mundial de um teatro onde as bombas são metáforas hoje, mas podem virar manchetes sangradas amanhã.
O mundo parece um palco de tragédias simultâneas: de um lado, a despedida serena de um padre que construiu catedrais invisíveis no coração do povo; do outro, políticos que cavam trincheiras na areia movediça da vaidade; e mais além, um presidente brincando de Deus da guerra em pleno século XXI.
Talvez a grande ironia seja essa: enquanto homens de fé passam a vida inteira semear esperança e partem em silêncio, homens de poder passam os dias semear medo e berram como se o mundo fosse seu quintal.
O 6 de setembro termina como um rosário mal rezado: uma conta de lágrima, outra de sarcasmo, outra de esperança. E, entre um “pai-nosso” e um “apocalypse now”, resta-nos a oração poética de que o amanhã não seja uma missa de sétimo dia para a própria humanidade.




