CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 18 de Agosto de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia 18 de agosto amanheceu com cara de leilão. Em Sergipe, o Estado resolveu brincar de feira livre com os credores: “Levem seus precatórios, adiantados e fresquinhos, por apenas 60% do valor original! Promoção válida até o fim do mês!”. Um desconto de 40% na dor é quase como vender esperança estragada em balcão de mercearia. O aposentado que esperou décadas pelo que lhe era de direito agora tem duas opções: morrer abraçado ao papel timbrado do Estado ou aceitar a esmola fantasiada de acordo. É como trocar a casa incendiada por uma caixa de fósforos com três palitos ainda inteiros.
Enquanto isso, o sertão sergipano floresce em meio à aspereza da terra. O chão seco, que costuma beber lágrimas como se fossem chuvas, agora se enfeita com colheitas tímidas que parecem sorrir para o sol. É o milagre da persistência, da mão calejada que insiste em semear mesmo quando a natureza cospe poeira. O agricultor do sertão é poeta sem saber: escreve versos de milho, rimas de feijão, estrofes de esperança.
Já em Brasília, Lula virou maestro de orquestra diplomática. Recebeu o presidente do Equador e prometeu afinar os violinos comerciais, como quem tenta transformar o Mercosul em uma grande banda marcial tocando marchinha de exportação. Em breve, chegam também os presidentes da Nigéria e do Panamá, porque o Brasil agora virou palco de festival internacional, com Lula no papel de anfitrião e garçom ao mesmo tempo, servindo cafezinho e discursos.
Mas a diplomacia não para por aí. Lula ainda arrumou tempo para conversar com Putin, que ligou para fofocar sobre o papo com Trump, que por sua vez quer juntar Putin e Zelensky numa mesa de bar internacional para resolver a guerra com petiscos de retórica e chope de promessas. Trump, claro, se apresenta como o garçom do mundo, pronto para trazer a conta que ninguém quer pagar. O Kremlin, sempre com aquele olhar blasé de quem não acredita nem em si mesmo, chamou o encontro de “ideia”. Uma ideia, veja bem: esse rascunho de paz que provavelmente morrerá rabiscado na margem de algum guardanapo em Washington.
Enquanto os grandes líderes tratam a guerra como se fosse uma rodada de pôquer maldita, o presidente da Câmara, Hugo Motta, promete apoio “maciço e majoritário” para proteger crianças e adolescentes nas redes sociais. O curioso é que, nesse circo, sempre aparece um palhaço para tentar puxar a lona. O PL de Bolsonaro torce o nariz, como se proteger crianças fosse uma afronta à liberdade de postar fake news no café da manhã. A ironia é que, no mundo de algoritmos vorazes, as crianças são jogadas ao Coliseu virtual sem escudo, enquanto senadores e deputados discutem quem vende melhor a entrada do espetáculo.
No fundo, tudo se resume a esse teatro: uns vendem precatórios com 40% de desconto, outros colhem feijão no sertão com suor que vale mais que ouro, outros ainda trocam telefonemas como figurinhas da Copa da Guerra. E nós, espectadores, aplaudimos com palmas cansadas, tentando rir para não chorar.
No final do dia, percebo que a vida política e econômica do Brasil se parece com aquelas feiras de domingo: bancas cheias de gritos, promoções duvidosas, vendedores de milagres e fregueses de esperança. Só que aqui, quem paga a conta somos sempre nós — e o troco, quando vem, chega atrasado e corroído.
E assim o dia 18 de agosto de 2025 se despede, carregado de ironias: o sertão sorri tímido, a justiça brinca de mercadinho, os líderes do mundo jogam conversa fora, e nós seguimos, entre risos e lágrimas, tentando sobreviver à liquidação da dignidade.




