CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 08 de agosto de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 08 de agosto de 2025
Publicado em 09/08/2025 às 9:45

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

O dia amanheceu com cheiro de tinta fresca e páginas virgens, como se o sol tivesse acordado para participar do FLIS, o Festival Literário Internacional de Sergipe. Ali, entre estandes que exalam café e papel, escritores de todos os cantos do mapa — dos becos de Aracaju às avenidas do mundo — trocam palavras como quem troca segredos. Cada livro é uma semente lançada no chão fértil da imaginação, e cada leitor é um jardineiro curioso, regando letras para colher histórias. O Aracaju Parque Shopping virou biblioteca com coração de feira, onde a poesia vende abraços e o romance autografa saudades.

Mas a cidade também se prepara para outro tipo de adoção: não de livros, e sim de vidas que latem e ronronam. Neste sábado, Aracaju abre suas portas para corações com focinhos, rabos e olhares que não precisam de tradução. Adotar um animal é como receber um capítulo novo na história da vida — com direito a lambidas no prefácio e bagunça nas páginas finais. Pena que nem todo mundo sabe escrever essa história com amor.

A prova disso veio de longe, direto da Espanha, onde a crueldade tem endereço, cheiro e ossos expostos: 32 cães foram encontrados em estado de decomposição. Morreram de fome, mas a verdade é que morreram de abandono — que é a fome da alma. Se existisse cadeia para a ausência de empatia, certos humanos passariam a eternidade tentando entender como é viver preso com a própria indiferença.

E entre uma notícia e outra, o samba chorou. Arlindo Cruz, mestre das cordas e das rodas de partido-alto, pendurou seu pandeiro na eternidade. Mais de 550 músicas gravadas, mas nenhuma delas pronta para nos ensinar a despedida. O Brasil amanheceu com um tantã batendo em surdina e um cavaquinho soluçando. Perdeu-se um poeta que fazia a tristeza sambar sem vergonha.

Enquanto isso, em Brasília, Lula assinou uma medida provisória para agilizar o licenciamento ambiental de obras “estratégicas”. Estratégicas para quem? — pergunta a floresta, coçando o queixo verde. O cerrado levanta a mão, o rio pigarreia, a montanha suspira. A natureza sempre foi boa de diálogo, mas raramente é chamada para a reunião.

E assim o dia se despede: entre livros que pedem leitores, cães que pedem lares, sambas que pedem intérpretes e florestas que pedem respeito. A vida é um festival — ora literário, ora animal, ora ecológico — mas a entrada só é gratuita para quem sabe que cuidar é a maior obra-prima.

Porque no fim, o que vale não é quantas páginas você leu, mas quantas histórias você ajudou a escrever sem final triste.