CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 03 de Agosto de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia 03 de agosto de 2025 amanheceu como um maestro que perdeu a batuta, mas não perdeu o compasso do absurdo. Enquanto o sol se espreguiçava preguiçosamente no céu sergipano, as manchetes desfilavam como uma escola de samba desafinada em plena madrugada.
Comecemos com a ópera do caos: cerca de 200 torcedores do Santa Cruz foram conduzidos à delegacia em Propriá. A cena, digna de um filme de Tarantino com roteiro de Nelson Rodrigues, envolveu uniformes rubro-negros, ônibus cheios de testosterona, bandeiras agitadas como lençóis ao vento e, claro, drogas que surgiram no enredo como coadjuvantes teimosas. O futebol, que deveria ser poesia em movimento, virou manchete policial. E Propriá, coitada, transformou-se em encruzilhada entre o amor ao clube e o desatino. Que Deus abençoe os inocentes e que os culpados descubram que torcer não combina com entorpecer.
Mas nem tudo são travessões e cartões vermelhos. Em outro canto da pauta, a Orquestra Sinfônica de Sergipe abriu vagas para regente de coro e pianista. Salário acima de R$ 5 mil! Um milagre quase barroco num Brasil desafinado pela inflação. Enquanto alguns vendem a alma por um pix parcelado, eis que surgem vagas para quem rege sinfonias e digita acordes como quem acaricia a alma do tempo. Quem diria: no meio do samba rasgado da política e da tragédia urbana, uma pauta em dó maior para tocar nossos corações em sol sustenido de esperança.
Falando em política — e sempre se fala, mesmo que seja para não falar — o Datafolha trouxe Lula como maestro da preferência popular. Primeiro turno, segundo turno, terceiro sinal: o povo parece disposto a ouvir novamente a melodia do presidente. Uns vibram como torcida em final de campeonato; outros rangem os dentes como freios de ônibus sem revisão. A democracia, essa senhora de saia rodada e humor instável.
E para fechar com um acorde dissonante e surreal, direto do repertório do absurdo: uma neozelandesa foi presa por carregar uma criança de dois anos dentro de uma mala. Sim, uma mala. Não era uma metáfora. Era literal como a dor de dente no domingo. O motorista do ônibus, ao notar a mala mexendo mais que político em época de escândalo, desconfiou. E lá estava a pequena passageira clandestina, apertada entre roupas, talvez brinquedos, e o descaso humano. Um retrato cru da desumanização que nos espreita entre o cinismo e a pressa.
O Brasil, neste primeiro domingo de agosto, parece ter sido regido por um maestro bêbado que ora tropeça na pauta, ora acerta uma nota de esperança. A tragédia e a graça caminham de mãos dadas pelas vielas da realidade, como velhas conhecidas que se desentendem, mas não vivem separadas.
A crônica termina aqui, mas a vida continua compondo seus arranjos entre a esperança desafinada e a fé que insiste em dançar, mesmo sem música. Que cada um de nós encontre seu ritmo — longe das malas fechadas, das drogas escondidas e das promessas vazias.
Porque viver é compor, mesmo que a partitura da realidade nos pareça, muitas vezes, rabiscada por um poeta trágico em crise existencial.




