CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de julho de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia amanheceu com a cara de quem comeu e não gostou. A quarta-feira desceu do céu feito trovão encabulado, misturando fumaça, fraude, fio desencapado, perfume sem ética e tarifa com gosto de vinagre. O Brasil, como sempre, acordou no divã – tentando entender se é um país ou um episódio inédito de série tragicômica de streaming internacional.
Incêndio em Itabi: os estudantes escaparam das chamas como fênix em treino de voo. O ônibus virou dragão cuspindo fogo sem aviso prévio. Milagre? Talvez. Ou apenas o reflexo da velha lógica nacional: onde a manutenção é lenda urbana e a sorte vira matéria da grade curricular. E ainda dizem que escola pública não ensina milagre…
Enquanto as labaredas não queimaram sonhos, em Aracaju uma mulher incendiava esperanças alheias com um golpe mais sujo que porão de delegacia em filme noir. A moça, disfarçada de fada financeira, vendia ilusão em potes recicláveis. Fez mais de 50 vítimas com o falso financiamento de veículos, vendendo roda que não girava e motor que só funcionava na imaginação. A criminosa virou símbolo do marketing brasileiro: prometer muito e entregar fumaça.
No teatro pastelão da política local, a Câmara de Aracaju ensaia mais uma peça do gênero “drama tributário”. O projeto de atualização da contribuição previdenciária passa por “ajustes” – essa palavra que em Brasília é sinônimo de enrosco. Os vereadores seguram o pincel, mas ninguém quer dizer quem derrubou o balde. A votação, marcada para quinta, promete mais tensão que novela das oito.
Na Avenida Anísio Azevedo, o trânsito virou jogo de tabuleiro. A obra chegou, e com ela o caos. Mudanças no tráfego são como labirintos invisíveis: só quem tem GPS na alma consegue sair. Aracaju vai se tornando especialista em transformar avenidas em enigmas, e motoristas em náufragos urbanos.
Mas nem tudo foi fumaça e confusão. Houve um lampejo de humanidade vindo do Congresso: a aprovação do projeto que proíbe testes de cosméticos e perfumes em animais. Finalmente, o grito calado dos coelhinhos de laboratório foi ouvido. Aleluia! A vaidade humana custou caro à inocência de muitos. Que esta vitória seja mais do que simbólica, e que o perfume da empatia supere o cheiro ácido da crueldade.
E eis que o planeta girou e os ventos sopram dos Estados Desunidos da América. Trump, o imperador do ego inflável, resolveu brincar de alfândega com o mundo. Enviou uma carta a Lula, que mais parecia escrita por um roteirista bêbado de ideologia: acusou o Brasil de atacar a liberdade americana e lançou uma tarifa de 50% sobre nossos produtos. Citou até Bolsonaro, como se fosse personagem de prestígio e não figurante de um julgamento no STF.
O Brasil, nesse cenário, virou o patinho feio da vez no baile de máscaras global. Enquanto o Itamaraty tenta afiar a faca da reciprocidade, os exportadores suam frio. Produtos brasileiros sofrerão mais que figurante em novela mexicana. O tarifaço de Trump é um coice diplomático, um salto ornamental da ignorância em piscina sem água. E Lula, ao convocar seus ministros, parece mais um capitão tentando remar contra a maré de vaidade imperial.
E como cereja do bolo, ou melhor, como dívida não declarada no recheio, Carlo Ancelotti, o técnico da seleção brasileira, é condenado a um ano de prisão por fraude fiscal na Espanha. Dizem que ele não pagou um milhão de euros em 2014. Era treinador do Real Madrid, mas esqueceu da real realidade do fisco.
O Brasil de hoje não é um trem desgovernado que tenta seguir trilhos feitos de papelão. Queimamos ônibus, enganamos inocentes, desrespeitamos leis, jogamos impostos no colo do povo e ainda recebemos pontapés tarifários de quem já deveria ter saído do jogo.
Mas também resistimos. Como os estudantes de Itabi, escapamos do fogo com esperança nos pés. Como os animais de laboratório, ansiamos pelo fim da dor desnecessária. E como povo, ainda insistimos em acordar todo dia para enfrentar essa novela sem capítulo final.
Porque ser brasileiro é isso: sobreviver ao incêndio, ao engano e ao imposto – com um sorriso, uma piada na ponta da língua e o coração carregando um Brasil que, um dia, quem sabe, deixará de ser manchete e passará a ser poema.




