CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de junho de 2025
Notícias entre a solidariedade vestindo agasalhos em Aracaju; do outro, foguetes e bombardeios despindo a paz no Oriente Médio. Um balão cai cheio de gente. O mundo, é uma colcha de retalhos costurada com linha de pólvora e linha de afeto.
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Era 21 de junho e o inverno bateu à porta com a sutileza de um urso polar num camarote de forró. Em Aracaju, o frio chegou pedindo um agasalho, um abraço e, para os mais poéticos, até uma sopa de letrinhas — daquelas que soletram “solidariedade” no prato fundo da consciência. A cidade, entre xotes e xaxados, dança com o vento gelado enquanto o Forró Caju e o Arraiá do Povo esquentam os corações que ainda batem fora do algoritmo.
Mas nem tudo é sanfona e esperança.
Do outro lado do mundo, um secretário municipal retorna de Israel, trazendo na mala promessas de inovação e desenvolvimento, e talvez um pé de startup plantado no deserto. Enquanto isso, sirenes cantam em Tel Aviv e as bombas desafinam a paz, num espetáculo pirotécnico de tragédia global. Os EUA, com sua diplomacia de míssil e cafeína, atacam instalações nucleares do Irã com B-2 bombardeando sonhos e plantando medo. Trump, o profeta da pólvora, sentencia: “ou paz ou tragédia”, como se o botão vermelho fosse um brinquedo de criança mimada num tabuleiro geopolítico. E Netanyahu, sempre com o discurso em chamas, avisa: “primeiro vem a força, depois a paz”, como se a humanidade aprendesse o amor no tapa.
Enquanto o mundo se incendeia, o céu de Santa Catarina lamenta. Um balão turístico — que deveria tocar o céu com poesia — despencou feito esperança sem asa. O fogo, sempre impiedoso, rasgou o azul e levou oito vidas para um voo eterno. Os outros treze passageiros, sobreviventes da vertigem e do susto, aterrissaram num chão de lágrimas. O Ministério do Turismo agora promete regulamentação — o tipo de solução que só chega depois da dor.
E por falar em dores, Bolsonaro tossiu. Entre soluços e vômitos, o ex-presidente foi diagnosticado com pneumonia. O médico recomendou menos agenda. Talvez seja o pulmão que grita por descanso, ou o corpo que cansou de carregar um passado pesado demais. Mas como todo enredo brasileiro, há sempre espaço para ironia: o homem que pedia cloroquina agora recebe repouso, e quem sabe, um bom xarope de realidade.
No Supremo, os votos não são de São João, mas o julgamento do século continua aceso: quem deve ser responsabilizado pelas postagens nas redes sociais? O STF dança quadrilha jurídica entre Cármen, Fachin e Marques, todos com propostas diferentes — como se cada um tocasse um forró em tonalidades opostas. Buscam consenso, mas no terreiro das Big Techs, é difícil fazer justiça quando os algoritmos dançam sozinhos e ninguém segura na mão do povo.
E nesse festival de contrastes, a crônica se faz espelho. De um lado, a solidariedade vestindo agasalhos em Aracaju; do outro, foguetes e bombardeios despindo a paz no Oriente Médio. Um secretário volta cheio de ideias após o susto da guerra; um balão cai cheio de gente. O mundo, é uma colcha de retalhos costurada com linha de pólvora e linha de afeto. E nós, pobres cronistas, tentamos bordar esperança entre os pontos de dor.
Porque no fim, a notícia mais urgente ainda é a mais silenciosa: o mundo precisa de calor humano — e não de bombas, nem de ódio, nem de likes com metralhadora.
E que o inverno não congele os nossos afetos. Que o forró não seja só ritmo, mas resistência. Que o céu seja morada de sonhos, não de chamas. E que nossas palavras, mesmo pequenas, sejam abrigo.




