CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de junho de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia 20 de junho de 2025 chegou trajado de chita, com cheiro de milho verde e promessas estalando como fogos de artifício no céu de um Brasil que insiste em não dormir no ponto — embora viva perdendo o ônibus da dignidade.
Comecemos pelas estradas. Em Sergipe, a frota de ônibus intermunicipais foi ampliada para o período junino. Aleluia! Milagre mais esperado que chuva em lavoura seca. Agora, o povo poderá ir e vir aos arraiais, entre xotes e xaxados, feito sanfona livre — ao menos nas rodas da ilusão. Mas que ninguém se engane: se o número de ônibus aumentou, o preço da passagem também dança quadrilha, de mãos dadas com a carestia. O forró vai, mas a carteira volta chorando feito viúva inconsolável.
Enquanto isso, no salão das trapaças, o forró virou funk ostentação: um corretor de imóveis foi preso, suspeito de aplicar golpes em Sergipe. Vendeu sonhos com fachada de castelo e alicerces de areia movediça. Prometeu chaves para o paraíso e entregou boletos para o inferno. Mais que vendedor de imóveis, virou corretor de ilusões, usando ternos de cetim sobre uma alma vestida de trapaça. E o povo, coitado, pagando IPTU da esperança numa cidade chamada decepção.
Do lado mais surreal do noticiário, eis que surge a figura mitológica de Antônio Cláudio Alves Ferreira — o homem que quebrou o relógio histórico do Palácio do Planalto. Sim, senhoras e senhores, o tempo foi vandalizado. O Brasil, que já anda atrasado há séculos, viu sua ampulheta virar entulho. Preso, fugido, solto, reencontrado a quase 100km de onde devia estar, o homem virou símbolo da cronologia caótica que rege nossa política: ora quebra, ora some, ora aparece como se nada tivesse acontecido. O relógio pode ter parado, mas o descaso segue pontual.
E do outro lado do hemisfério, nos Estados Unidos da América que se dizem do Norte, a justiça americana teve um lampejo de lucidez: Mahmoud Khalil, estudante com green card, foi libertado após participar de protestos pró-palestinos. Preso por ter opinião, por levantar a voz, por fazer o que muitos preferem fingir que não veem. Ser estrangeiro num país que se diz livre é como dançar quadrilha com os pés acorrentados. O juiz, desta vez, soprou a vela da legalidade e disse: “Não há motivo para mantê-lo preso”. Um sopro de razão em meio ao vendaval da hipocrisia global.
O mundo gira, o tempo quebra, o ônibus atrasa, o corretor engana, o estudante protesta, e o Brasil… o Brasil segue, entre um passo de forró e uma topada na pedra da desigualdade. Somos uma nação com o coração em festa e os bolsos em luto. Temos olhos que brilham com fogueira, mas marejam diante do fogo cruzado da corrupção, da omissão e da repressão.
Neste 20 de junho, enquanto uns ampliam a frota, outros ampliam o golpe; enquanto uns quebram relógios, outros tentam consertar a liberdade com argumentos jurídicos. E o povo? O povo segue, com fé, humor e coragem, dançando a vida com sapatos furados e esperança no bolso da camisa.
Porque, no Brasil, meu amigo, até o tempo, quando quebra, dá samba e forró.




