CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de junho de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de junho de 2025
Publicado em 16/06/2025 às 7:20


Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

No tabuleiro de um Brasil que dança entre a pólvora e o forró, o dia 15 de junho de 2025 amanheceu com cheiro de pólvora dupla — a das guerras distantes que explodem no Oriente e a das espadas de São João que rasgam o céu do Nordeste.

No epicentro do calor nordestino, onde o suor vira brilho e o passo vira poesia, a quadrilha Pioneiros da Roça deu um olé no tempo e levantou poeira e aplausos com um tema celestial: Divina, em homenagem à Pastora que zela por Sergipe. Em pleno ginásio Constâncio Vieira, onde o concreto treme mais por causa das sanfonas do que pelos terremotos geopolíticos, seis mil almas se embriagaram de alegria — uma embriaguez santa, de riso largo e fé colorida.

Enquanto isso, do outro lado do mundo e do outro lado do humor, o conflito entre Irã e Israel já ensaia uma quadrilha macabra há quatro dias. Só que lá, em vez de sanfona, ouve-se o som de bombas; em vez de fogueira, as cidades ardem em chamas; e em vez de balões coloridos, o céu é enfeitado com fumaça e destroços. As cifras desse horror já passam dos 240 mortos — com crianças, sonhos e futuros carbonizados sem aviso prévio. O mundo assiste, de camarote, enquanto os foguetes que aqui anunciam festa, lá anunciam funeral.

E não bastasse a guerra, 13 autoridades brasileiras — que foram até Israel não se sabe bem por qual divina inspiração diplomática — agora tentam escapar do fogo cruzado, buscando pouso na Jordânia, como quem corre de um tiroteio no bairro errado. Diante disso, fica a pergunta no ar como um balão indeciso: foram representar o quê? A neutralidade tropical? A arte de não se meter, mas sempre aparecer nas fotos?

Por falar em representatividade, a vitória dos Pioneiros da Roça é também um tapa de luva de renda no descaso com a cultura popular. Quando a gente pensa que tudo virou algoritmo, o povo dança. Quando acham que o sertanejo só serve pra meme, o xaxado ressurge como patrimônio vivo. É nesse compasso que o Brasil resiste: com passos sincronizados, figurino bordado de história e fé bordada de suor. A roça ganha da bomba, o riso vence o drone, o milho verde triunfa sobre os mísseis.

Mas nem tudo foi festa. O silêncio de um pandeiro também ecoou forte. Morreu Bira, lenda do samba, tamborim da história, sorriso largo da velha guarda. Partiu entre um acorde esquecido e a neblina do Alzheimer, como quem some devagarinho, feito nota de cavaquinho em dia de luto. O presidente — sempre pronto para o tweet — mandou condolências. Mas o samba, esse não morre: ele só muda de ritmo e vai tocar noutro plano.

E no futebol, esse outro terreiro onde o Brasil também ensaia coreografias, o Botafogo venceu na Copa do Mundo de Clubes. Sim, o Botafogo venceu — e isso já seria um milagre suficiente para canonizar três São Jorges. Já o Palmeiras empatou, como quem vai à festa mas esquece o par do lado de fora.

No fim, o Brasil segue assim: sambando em campo minado, dançando quadrilha em ginásio lotado, perdendo mestres da música e exportando autoridades para abrigos. Somos essa mistura de forró e funeral, de esperança e espanto, de milho assado e míssil lançado. Um país onde a paz é dançada e a guerra é ignorada até aparecer na TV do bar.

Que a Divina Pastora nos proteja da falta de juízo, da guerra alheia e do esquecimento do que realmente importa: a vida, o riso, o samba e o São João. Porque no fim das contas, o sonhador quem diga: melhor levantar poeira com a quadrilha do que com o caos do mundo.