CONTO

O menino que queria jogar futebol

O menino que queria jogar futebol
Publicado em 10/06/2025 às 9:28


Por Antônio Glauber Santana Ferreira

No vilarejo de Santana dos Sonhos, vivia um menino chamado Bento, cujos olhos brilhavam como a relva molhada das manhãs de orvalho. Seu maior desejo era calçar as chuteiras e sentir o cheiro do campo de terra, onde a bola de couro parecia ter vida própria.

Mas Bento não tinha chuteiras, tampouco um campo. O que tinha era a rua esburacada e a imaginação fértil, onde cada pedregulho virava um jogador adversário e cada baliza feita de chinelo, um portal para a glória.

“Um dia vou jogar no Maracanã!”, repetia Bento para quem quisesse ouvir. E para quem não quisesse, também. Sua avó, Dona Candinha, ria e balançava a cabeça, dizendo que as palavras têm força e que sonhar é como chutar a bola para longe: só para quem tem coragem de correr atrás dela.

Nos domingos, Bento ajudava o pai na feira, carregando sacos de farinha e vendendo frutas maduras. Ao entardecer, corria para a rua de terra, onde improvisava dribles e passes. Não havia juiz, nem técnico, apenas Bento e a lua que surgia cedo para iluminar suas fintas imaginárias.

Certo dia, o time da escola anunciou um amistoso. Bento quis participar, mas o professor disse que era só para quem tinha chuteiras. Foi então que Bento decidiu que nem o destino, nem a falta de chuteiras iam pará-lo. Pediu ao sapateiro da vila um par de chuteiras feitas de retalhos de couro, como se cada pedacinho fosse um sonho costurado.

No grande dia, Bento entrou em campo com as chuteiras que pareciam um mosaico de esperança. A bola parecia saber que Bento tinha algo a dizer com os pés, e rolava como se fosse sua amiga de infância. Bento correu, driblou, sorriu e, no final, marcou o gol que fez o campo inteiro vibrar.

Não foi no Maracanã, mas para Bento, aquele era o maior estádio do mundo. E ao olhar para o céu, soube que sonhar é o primeiro passo para qualquer vitória — mesmo que seja só o começo de um jogo que a vida ainda vai inventar.