CRÔNICA

Crônica: O Tempo, o Jornal e Gilvan Fontes

Crônica: O Tempo, o Jornal e Gilvan Fontes
Publicado em 25/05/2025 às 16:33


Por Antônio Glauber Santana Ferreira

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No palco iluminado da informação, onde as notícias desfilam em fila indiana — ora apressadas, ora tropeçando na urgência dos fatos —, um homem de voz firme e olhar sereno decidiu baixar as cortinas de uma história que se confundiu com a própria história do jornalismo sergipano.

Gilvan Fontes não é apenas um nome; é um verbo no passado, no presente e, com licença poética, no futuro do telejornalismo. Foram 60 anos — repito devagar para não assustar os apressados — sessenta anos de uma carreira onde a verdade não era uma opção, mas um princípio.

Na sua última aparição no Jornal do Estado, não houve furo de reportagem, mas houve furo no peito de quem assistia. O microfone, que por tantas décadas foi extensão da sua alma, tremia quase tanto quanto as emoções do próprio jornalista. Gilvan, entre sorrisos e olhos marejados, fez mais que se despedir — ele costurou, ponto a ponto, memórias que nem o tempo ousará apagar.

Falou das máquinas de escrever que um dia rangiam como sinfonias das redações. Lembrou dos tempos em que notícia tinha cheiro de tinta fresca e papel amarelado. Das transmissões que sofriam mais que jogador em final de campeonato. E também das transformações: do jornal em preto e branco às telas digitais coloridas, dos telegramas à era das redes onde todo mundo é âncora, repórter e, às vezes, até fake.

Enquanto falava, as câmeras tremiam — ou seria a mão dos cinegrafistas, emocionados como quem assiste o pôr do sol sabendo que ele não volta igual? A equipe do Jornal do Estado não conteve a homenagem: abraços, aplausos, olhares que diziam tudo sem dizer nada. Afinal, como agradecer a quem fez do jornalismo uma missão, não um emprego?

Gilvan sai da tela, mas não sai da história. Leva consigo a elegância do bom texto, a ética que hoje anda mais em falta do que café nas redações e a serenidade de quem sabe que cumpriu, com louvor, seu papel.

E nós, telespectadores, ficamos aqui… meio órfãos, meio gratos. Com a certeza de que, se jornalismo é mesmo a primeira versão da história, Gilvan Fontes foi, por seis décadas, um dos seus melhores contadores.

Que sua voz, agora em silêncio nas telas, ecoe para sempre na memória de quem aprendeu a diferença entre informar e transformar.