CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 14 de maio de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 14 de maio de 2025
Publicado em 15/05/2025 às 10:37

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Na orquestra desafinada dos dias, o 14 de maio chegou batendo palmas com luvas de veludo, tentando disfarçar os calos das mãos calejadas. O Cerrado chorou folhas, mas os jornais cantaram em uníssono: “O desmatamento recuou”. Recuou como quem dá dois passos para trás depois de ter desmatado em ritmo de marcha militar, rasgando o bioma com motosserras afinadas no tom do agronegócio desafinado. Ainda assim, a manchete veio como flor que insiste em brotar no concreto rachado.

Mas não se iluda, leitor: o Cerrado continua sendo o escudo que protege a nascente da vida, e mesmo assim é tratado como papel de embrulho depois do presente aberto. E ainda dizem que o Brasil é o pulmão do mundo… talvez, mas anda fumando pesado.

Enquanto a natureza pede um respiro, o Estado de Sergipe resolveu tirar a Praia do Saco do saco. Propôs regularizar o paraíso, como quem tenta pôr cerca em borboleta. A ideia é louvável, dizem, com sede da APA prometida, turismo sustentável no horizonte e “ação coordenada” no papel timbrado. Mas quem conhece o Litoral Sul sabe: as dunas escutam promessas há décadas, e as falésias já aprenderam a rir de boca fechada.

E por falar em promessas, vamos ao picadeiro do INSS: onde palhaços não fazem rir, mas chorar.

Uma mulher, em Aracaju, foi presa por aplicar golpes em aposentados — sim, nos mesmos que já estavam sendo espremidos até o tutano por descontos misteriosos. Golpista é pouco: tratava-se de uma artista do estelionato, dessas que usam papel, caneta e cara de santa para tirar o pão de quem só queria comprar remédio.

Mas nem tudo se resume à periferia do golpe: a elite da malandragem estava em Brasília, onde o presidente da Conafer, entidade de nome pomposo e prática duvidosa, assinou um contrato de silêncio consigo mesmo. Isso mesmo, leitor: ele conversou com o espelho, redigiu cláusulas de sigilo e garantiu que o único que saberia o valor de seu salário era… ele mesmo! Um verdadeiro “autoacordo de confidencialidade”, um monólogo jurídico digno de Oscar da impunidade.

E enquanto o Brasil contava os centavos dos aposentados e somava milhões desviados, em Istambul, Rússia e Ucrânia fingiam que ainda há mesa para diálogo. Putin não foi. Zelensky bateu o pé. O encontro foi mais vazio que promessa de político em véspera de eleição. Mesmo assim, lá estavam as cadeiras, as bandeiras e os suspiros diplomáticos. Quem sabe um fio de paz não escapa por uma fresta da história?

Mas, cá entre nós, o que mais me doeu hoje foi ver o Brasil que cuida dos seus velhos sendo assaltado pelos próprios filhos. Não bastasse a velhice cobrar o joelho, o INSS cobra em carnê invisível. Uma nação que brinca de Robin Hood às avessas: rouba dos pobres e paga consultoria para os ricos.

É por isso que hoje, meu caro leitor, essa crônica vem com o coração em chamas e a caneta molhada nas lágrimas dos esquecidos. Entre a flor que brota no Cerrado e a mão que furta o benefício do idoso, há um país inteiro gritando: “socorro!” — mas a voz está ficando rouca de tanto ecoar no vazio.

Talvez ainda haja cura, talvez a Praia do Saco se transforme num símbolo de recomeço, talvez o Cerrado reencontre suas raízes… e talvez os golpistas descubram que a Justiça pode demorar, mas não esquece endereço.

Enquanto isso, sigo escrevendo da trincheira, de onde vejo um país que luta para respirar entre uma motosserra e uma nota fiscal.

E rezo, como sempre, para que amanhã seja menos cruel do que hoje.