CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 14 de maio de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Na orquestra desafinada dos dias, o 14 de maio chegou batendo palmas com luvas de veludo, tentando disfarçar os calos das mãos calejadas. O Cerrado chorou folhas, mas os jornais cantaram em uníssono: “O desmatamento recuou”. Recuou como quem dá dois passos para trás depois de ter desmatado em ritmo de marcha militar, rasgando o bioma com motosserras afinadas no tom do agronegócio desafinado. Ainda assim, a manchete veio como flor que insiste em brotar no concreto rachado.
Mas não se iluda, leitor: o Cerrado continua sendo o escudo que protege a nascente da vida, e mesmo assim é tratado como papel de embrulho depois do presente aberto. E ainda dizem que o Brasil é o pulmão do mundo… talvez, mas anda fumando pesado.
Enquanto a natureza pede um respiro, o Estado de Sergipe resolveu tirar a Praia do Saco do saco. Propôs regularizar o paraíso, como quem tenta pôr cerca em borboleta. A ideia é louvável, dizem, com sede da APA prometida, turismo sustentável no horizonte e “ação coordenada” no papel timbrado. Mas quem conhece o Litoral Sul sabe: as dunas escutam promessas há décadas, e as falésias já aprenderam a rir de boca fechada.
E por falar em promessas, vamos ao picadeiro do INSS: onde palhaços não fazem rir, mas chorar.
Uma mulher, em Aracaju, foi presa por aplicar golpes em aposentados — sim, nos mesmos que já estavam sendo espremidos até o tutano por descontos misteriosos. Golpista é pouco: tratava-se de uma artista do estelionato, dessas que usam papel, caneta e cara de santa para tirar o pão de quem só queria comprar remédio.
Mas nem tudo se resume à periferia do golpe: a elite da malandragem estava em Brasília, onde o presidente da Conafer, entidade de nome pomposo e prática duvidosa, assinou um contrato de silêncio consigo mesmo. Isso mesmo, leitor: ele conversou com o espelho, redigiu cláusulas de sigilo e garantiu que o único que saberia o valor de seu salário era… ele mesmo! Um verdadeiro “autoacordo de confidencialidade”, um monólogo jurídico digno de Oscar da impunidade.
E enquanto o Brasil contava os centavos dos aposentados e somava milhões desviados, em Istambul, Rússia e Ucrânia fingiam que ainda há mesa para diálogo. Putin não foi. Zelensky bateu o pé. O encontro foi mais vazio que promessa de político em véspera de eleição. Mesmo assim, lá estavam as cadeiras, as bandeiras e os suspiros diplomáticos. Quem sabe um fio de paz não escapa por uma fresta da história?
Mas, cá entre nós, o que mais me doeu hoje foi ver o Brasil que cuida dos seus velhos sendo assaltado pelos próprios filhos. Não bastasse a velhice cobrar o joelho, o INSS cobra em carnê invisível. Uma nação que brinca de Robin Hood às avessas: rouba dos pobres e paga consultoria para os ricos.
É por isso que hoje, meu caro leitor, essa crônica vem com o coração em chamas e a caneta molhada nas lágrimas dos esquecidos. Entre a flor que brota no Cerrado e a mão que furta o benefício do idoso, há um país inteiro gritando: “socorro!” — mas a voz está ficando rouca de tanto ecoar no vazio.
Talvez ainda haja cura, talvez a Praia do Saco se transforme num símbolo de recomeço, talvez o Cerrado reencontre suas raízes… e talvez os golpistas descubram que a Justiça pode demorar, mas não esquece endereço.
Enquanto isso, sigo escrevendo da trincheira, de onde vejo um país que luta para respirar entre uma motosserra e uma nota fiscal.
E rezo, como sempre, para que amanhã seja menos cruel do que hoje.




