CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio GlauberSobre a partida de José Mujica – 13 de maio de 2025

Crônica do Professor Antonio GlauberSobre a partida de José Mujica – 13 de maio de 2025
Publicado em 14/05/2025 às 12:36

O homem que plantava ideias

Era uma vez um presidente que andava de Fusca azul e colhia flores nos campos da humildade. José Mujica não governava apenas um país: regava consciências com a mangueira da esperança e podava os excessos do poder com a tesoura da simplicidade.

Na manhã cinza de 13 de maio, o mundo acordou com um silêncio diferente. Não era o silêncio da ausência, mas o da reverência. Morreu Mujica, o floricultor de utopias, o guerrilheiro que trocou o fuzil pela palavra, o estadista que fez da ética sua companheira inseparável. Um homem que, mesmo no poder, jamais saiu da terra.

Partiu aos 89, com um câncer no esôfago — talvez porque a garganta que tanto discursou pela justiça já não suportasse engolir as injustiças do mundo.

No Uruguai, deixou sementes de dignidade. No planeta, brotaram roseiras de admiração. Recusou palácios, mas jamais rejeitou a nobreza de ser humano. Vestia roupas gastas, mas vestia também os sonhos dos que não tinham vez. Recusava luxo, mas abraçava ideias como quem acolhe filhos.

Governou de 2010 a 2015, mas seu mandato no coração do povo é vitalício. Porque Mujica foi mais que presidente — foi parábola viva, poesia em carne e osso, tratado ambulante de filosofia política.

Enquanto tantos se embriagam de vaidade, Mujica brindava com água de poço e olhos no horizonte. Um velho sábio num mundo de jovens ambiciosos. Um rosto vincado de passado, mas que sorria como quem já enxergava o futuro com fé.

Morreu o homem, mas o mito camponês segue lavrando a memória. Mujica agora mora na eternidade — onde não há palácios nem partidos, mas apenas campos de justiça para florescer.