CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 10 de maio de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Neste sábado com cheiro de floricultura e som de maquininhas de cartão, o Brasil abriu os olhos com a alma dividida entre o Dia das Mães que se aproxima e o INSS que reaparece – como aquele parente distante que só liga quando precisa. Eis que o órgão, vestido de “remorso administrativo”, anunciou que vai mandar bilhetinhos virtuais a cerca de 9 milhões de aposentados. Isso mesmo: nove milhões de almas que, ao invés de receberem um afago na conta, ganharam um sumiço misterioso em seus benefícios — como se o desconto viesse voando numa asa de vampiro digital, sorrateiro, invisível, impiedoso.
É o Brasil da tenda dos milagres, onde até o dinheiro dos velhinhos faz mágica: desaparece antes de chegar. E agora, com o tom de quem quer consertar um vaso estilhaçado com fita adesiva, o INSS pede que eles confirmem se autorizaram o rombo. É como perguntar ao peixe se foi ele que assinou o contrato com o anzol.
Enquanto isso, no reino da política, Roberto Jefferson — um veterano de escândalos, frases de efeito e outros efeitos colaterais — trocou o hospital-prisão pelo SPA domiciliar. Moraes, aquele mesmo ministro que virou um misto de juiz, síndico e bombeiro do STF, concedeu a prisão domiciliar ao ex-deputado. A justificativa: questões de saúde. E lá se vai Jefferson para casa, talvez de roupão, chá de camomila e tornozeleira que apita mais que panelaço em época de crise. A justiça no Brasil é tão simbólica que, às vezes, parece escrita por Guimarães Rosa em um dia de fúria poética.
No Vaticano, entre pedrarias, castiçais e incensos eternos, Leão XIV fez o que qualquer líder espiritual com fôlego faz: visitou a tumba do antecessor, o Papa Francisco, e disse que vai seguir seus passos. Esperamos que seja no campo das ideias, não apenas na coreografia. Porque seguir Francisco é coisa de coragem: o papa que trocou tronos por tênis, anéis por abraços, e luxo por lucidez. Já Leão parece mais um diplomata de altar, abençoando com um olhar de CEO celestial.
Enquanto tudo isso se desenrola, o comércio em Sergipe respira aliviado. É véspera do Dia das Mães, e o povo corre às lojas como quem corre às igrejas no fim do mundo. Buscam presentes, perfumes e panos para cobrir as ausências do afeto. Em meio a sacolas e promoções, a emoção tenta vencer a inflação — e em alguns lares, vence mesmo. Porque mãe, no Brasil, é mistura de milagre, martírio e Ministério da Esperança. E mesmo que o filho só ligue uma vez por ano, ela ainda atende com voz de reza e coração de pão quente.
O sábado foi assim: com velhos sendo notificados por um aplicativo que eles mal sabem usar, políticos sendo libertados com laudos que ninguém ousa contestar, e um novo papa tentando herdar o espírito do anterior, mas com cara de gerente de RH do céu. E no meio disso tudo, as mães — eternas metáforas da resistência, do consolo e da verdade que não cabe em boletins oficiais.
Porque enquanto houver mãe, haverá um pouco de justiça fora dos tribunais, fé fora das basílicas e cuidado fora das políticas públicas.
E que o Brasil aprenda com elas: a remendar com doçura, a corrigir com firmeza, e a amar mesmo quando a pátria se comporta como um filho mimado.




