CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 27 de abril de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 27 de abril de 2025
Publicado em 28/04/2025 às 0:28

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Num domingo que parecia bordado à mão pelas agulhas de Deus, o fio da tragédia rasgou o tecido da fé em Nossa Senhora das Dores.

Era dia de Crisma — de cravar nos jovens a esperança em forma de sacramento —, mas foi a dor quem carimbou presença. Um ônibus, cansado das curvas da vida, resolveu que era hora de dormir no leito do rio. Resultado: duas almas — uma mulher que sabia das durezas do mundo e uma criança que ainda mal havia desenhado o seu primeiro sol com lápis de cera — foram entregues ao céu antes da hora marcada.

As sirenes, aquelas vozes metálicas da urgência, ecoaram como corvos no entardecer. Vieram Polícia Militar, GTA, Bombeiros, Samu — todo o teatro de socorro se armou como num balé improvisado, dançando sobre lágrimas e sirenes, onde a esperança tropeçava nos escombros da ponte.

E a gente, que adora colocar fé em latas e milagres em protocolos, ficou com a garganta entupida de interrogações: quantos ônibus ainda vão dormir antes da hora, em estradas que mais parecem linhas de pesadelo desenhadas por mãos descuidadas?

Enquanto isso, lá no mundo dos cifrões digitais, a XP Investimentos tentava colocar curativo em banco de areia: vazou o nome, o saldo, o limite de crédito… mas, calma, disseram: “o dinheiro não andou.” Ah, que bom!
Em terra de dados vazados, quem tem CPF limpo é rei — ou, pelo menos, futuro alvo de golpe educado, que manda um “bom dia” antes de roubar.

É um consolo ouvir que os valores estão seguros. É como ver a casa em chamas e a companhia de seguros dizendo: “Relaxe, a escritura está intacta.”

Do outro lado do tabuleiro global, o Brasil, deitado eternamente em berço esplêndido e churrasqueiro, viu na guerra comercial entre China e EUA uma oportunidade para enfiar mais picanha no mercado asiático.
Especialistas animados, como sempre, disseram que isso não vai afetar o preço da carne no Brasil.
Claro, a gente acredita, porque também acreditamos no Coelhinho da Páscoa, na Fada do Dente e na gasolina a dois reais.

No açougue da esquina, o músculo já custa o preço do filé mignon em tempos de bonança. Imagine agora, com a boiada atravessando oceanos.
O brasileiro, que já substituía a carne por ovo, agora vai precisar substituir o ovo por um sonho — e olhe lá se não estiver inflacionado também.

E nos Estados Unidos, terra da liberdade… mas só pra quem tiver todos os carimbos certos no passaporte, a polícia invadiu uma boate e prendeu mais de 100 imigrantes.
Uma dança interrompida, um copo ainda meio cheio, uma vida inteira de coragem entornada no chão frio da imigração.
Trump sorri no retrato, feito dono de um parque temático da xenofobia, enquanto imigrantes, que só queriam dançar e trabalhar, são tratados como intrusos num baile que eles mesmos ajudaram a montar.

O “sonho americano” parece hoje mais uma peça de teatro — dessas em que se vende o ingresso dourado, mas se assiste, da coxia, com medo de ser expulso antes do final.

No domingo, Deus bordava esperança no céu.
Mas os homens, com mãos de ferro e olhos vendados, bordaram tragédias, vazamentos, ganâncias e prisões.
E nós, frágeis pontinhos no tear da existência, seguimos remendando nossa fé com linhas de resistência, tentando costurar um pouco de paz num pano que insiste em se rasgar nas notícias do dia.

Porque, no fim das contas, ainda acreditamos:
que o ônibus seguirá seu caminho;
que nossos dados voltarão a ser nossos;
que o churrasco não será apenas uma lembrança;
e que quem dança, dança — sem algemas nos pulsos e sem medo no peito.