CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 24 de abril de 2025
O Dia em que o Rato Subiu ao Trono, o Papa Desceu ao Céu e a Justiça Pegou o Trem para Aracaju
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
24 de abril, mas poderia ser 1º de abril com roteiro de tragédia grega e trilha sonora de riso nervoso. O Brasil acordou com cheiro de formol político, spray de desratização e incenso de velório papal — uma manhã que misturou céu e esgoto, altar e plenário, júri e loteria. Segurem-se, leitores, pois este trem de metáforas parte sem freio.
Comecemos pela maternidade, que mudou de mãos como se fosse uma criança sem certidão, passando da prefeitura para um tal de IGH — Instituto de Gestão e Humanização. Humanização… palavra bonita que, em tempos de máquina pública emperrada, soa como música de elevador: toca, mas ninguém escuta. É como dar um banho de perfume num porco esperando que ele vire bailarino.
Enquanto isso, na Alese, o palco do teatro legislativo se superou. Decidiram extinguir os tribunais do júri de Barra e Socorro, cidades que agora devem viajar de carona no camburão da centralização até Aracaju para julgar seus dramas. O povo que lute — ou melhor, que pague passagem. A justiça, essa senhora de olhos vendados, agora também usa GPS. E quem não votou nesse desmonte? Os três mosqueteiros da resistência: Paulo Júnior, Linda Brasil e Marcos Oliveira — que ousaram duvidar da pressa em desatar o nó da democracia sem antes perguntar quem puxava a corda.
Ah, e criaram também os tais juízes de garantias. Garantia de quê? De que ninguém mais entende quem é juiz de instrução, quem julga e quem só observa. Mas tudo bem, a plateia já estava perdida mesmo, entre o cheiro de mofo e o gosto de derrota.
No Hospital de Urgências, um rato fez sua ronda na ala azul. Um herói anônimo de quatro patas que, talvez, apenas tentasse escapar das metáforas de um sistema de saúde em colapso. Rato? Sim. E ironicamente, talvez o único ser com coragem suficiente pra entrar em um hospital público e sair vivo. A Secretaria de Saúde jurou que faz desratização “regularmente”. Mas regular é o quê? Uma vez por pontificado?
Falando nisso, o Papa Francisco despediu-se da Terra. O humilde pontífice argentino, que cheirava a povo e andava de Fiat, agora é saudado por uma procissão de poderosos. Lula, Janja, Barroso e um batalhão de excelências embarcaram para Roma para prestar suas homenagens. A eternidade do Papa virou vitrine para a vaidade dos vivos. Porque no Brasil, até a santidade vira pauta protocolar e selfie diplomática.
Lá na Tailândia, o céu também se fechou: um avião policial caiu no mar, levando cinco vidas em sua queda trágica. Era só um teste. Mas a vida não gosta de ensaio. E, às vezes, o destino corta o paraquedas antes mesmo do salto.
Do outro lado do mundo, a juíza Landya McCafferty soprou esperança ao vento ao impedir que Trump acabasse com verbas de escolas que promovem diversidade e inclusão. Foi como se alguém acendesse uma vela na escuridão. E que essa chama resista aos ventos do retrocesso, que sopram com força do Texas ao Capitólio.
Enquanto isso, no Brasil, um bolão de Santa Catarina levou 25 milhões na Mega-Sena. Um sopro de fortuna no pulmão do azar nacional. Para muitos, um milagre maior do que qualquer bênção papal. Porque, cá entre nós, a sorte no Brasil é como vacina: poucos têm acesso, muitos morrem esperando.
E assim terminou o dia: com velas acesas para o Papa, rato em ala hospitalar, justiça em Aracaju e sorteio premiado para poucos. O Brasil, esse país que flutua entre o sagrado e o profano, seguiu dançando sobre o fio da navalha — entre a esperança que ainda respira e a realidade que insiste em bater com a porta na cara.
E eu, cronista de beira de rio e riso de esquina, sigo escrevendo com a caneta do espanto e a tinta da crítica. Porque rir ainda é resistência. E chorar, às vezes, também.




