CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 22 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Num Brasil que acorda com a luz mais cara e a esperança na conta de débito automático, o dia 22 de abril de 2025 não foi propriamente um feriado de descobrimentos — ao contrário, foi um dia em que o povo descobriu que o buraco na tomada é mais fundo do que o das caravelas de Cabral.
A tarifa de energia elétrica subiu como pipa em dia de ventania — só que, nesse caso, quem segura o carretel é o povo, e o vento é contra. O aumento da conta veio como um trovão na madrugada, sem aviso e sem piedade, queimando mais do que chuveiro velho em casa alugada. Enquanto isso, o empresário pequeno — aquele que vende açaí, frango frito ou esperança parcelada — se pergunta se vai precisar trocar a câmara fria por um isopor.
E por falar em calor e luz, despedimo-nos do jornalista Ivan Valença — uma voz que iluminou por décadas os corredores da notícia. Ivan, esse farol sergipano da palavra certeira, agora silencia, mas deixa um eco de lucidez na rádio da memória. Morre o homem, mas sobrevive a crônica que batia com precisão na alma da notícia e no juízo dos leitores.
Já Gilvan Donato, o artista das tintas sergipanas, que havia sumido nos labirintos cinzentos de São Paulo, reapareceu — renascido das margens de uma rodovia como quem escapa de um quadro expressionista. Desabou de uma ribanceira como se a própria arte, esgotada, tivesse tropeçado. Voltou para Sergipe, cambaleante e sensível, feito pincel que reencontra a paleta. Está em Cumbe, talvez repintando sua alma com as cores de casa, que são sempre mais vivas do que as da metrópole.
Enquanto isso, o MEC resolveu brincar de termômetro acadêmico e criou um novo exame para medir a temperatura dos cursos de medicina. Serão 56 mil candidatos buscando um estetoscópio e uma chance de curar o mundo, mas, por enquanto, quem precisa mesmo de remédio é o sistema educacional — que anda febril, desnutrido e com crise de identidade.
Lá longe, Istambul tremeu — não de emoção, mas de um terremoto que sacudiu a velha cidade como quem vira um tapete de memórias. Em pânico, pessoas se jogaram de alturas como se o chão fosse um alívio. Tragédia que nos lembra: a terra é firme só até que decida chorar por dentro.
O mundo girou, mas o eixo está torto. As notícias de hoje são pinceladas de ironia num quadro surrealista que se recusa a ser pendurado. Entre tremores sísmicos e elétricos, perdas humanas e retornos quase milagrosos, o Brasil segue como um samba de uma nota só desafinado pelo preço da conta de luz.
Reflexão final:
Se Cabral tivesse desembarcado hoje, com certeza teria voltado para Portugal alegando falta de condições energéticas. Porque, convenhamos, esse Brasil do século XXI está exigindo muito mais que caravelas — está exigindo fé, poesia e um bom gerador solar.
Com ternura, crítica e esperança,
Antonio Glauber Santana Ferreira
Professor e cronista de um país que resiste até na queda de energia
Japaratuba-SE




