CRÔNICA
“E Se…? Um Brasil que Poderia Ter Sido”
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
Esses dias, entre um café amargo e uma esperança adoçada com ironia, parei pra pensar…
E se a vaidade fosse uma erva daninha que subisse pelas paredes do Congresso e enroscasse nas togas do Judiciário? E se o poder, esse vício mais potente que cocaína política, tivesse um cheiro tão sedutor que até os mais castos da República resolvessem cheirar só um pouquinho?
Imagina só: se Aécio, em 2014, tivesse aceitado a derrota como um bom jogador de War que perde o controle da Europa, mas ainda segura a Austrália com dignidade. Se ele, ao invés de inflamar a narrativa de um país dividido, tivesse pegado sua viola tucana e saído de fininho pela porta da democracia, quem sabe hoje ele ainda teria um ninho?
Se Moro tivesse continuado vestindo sua capa de juiz como quem veste um manto sagrado, sem fazer da toga trampolim para o picadeiro político… se o lavajatismo tivesse limpado o que devia e parado por aí, ao invés de lavar também as mãos, como um novo Pilatos do século XXI…
E se o Boca Podre, ah… esse personagem de filme trash com roteiro distópico, tivesse se contentado com suas rachadinhas e seus memes entre um camarão e outro, ali no cercadinho do baixo clero… talvez hoje estivesse brindando com tubaína à sombra de um guarda-sol, e não tentando costurar as vísceras da própria arrogância.
Mas não. A história foi escrita por mãos trêmulas de ganância. O que era pra ser um tropeço virou avalanche.
Aécio virou zumbi político: nem morto, nem vivo, só malcheiroso.
O PSDB é hoje uma relíquia de museu político, guardado ao lado do plano Cruzado e da calcinha da Hebe.
Moro, o ex-herói, tropeça nas próprias palavras, se afoga em suas vaidades e nada em direção ao nada.
E o Boca Podre?
Remendado, murchando como um balão de festa velha, apodrece sob a luz do dia, cercado por investigações, filhos mimados e generais arrependidos.
E o Brasil…
Ah, o Brasil virou um circo onde o palhaço chora, o malabarista está armado, e o domador foi devorado pelos próprios leões que criou.
Foram tantos tiros no próprio pé que o país já não sabe mais andar — só manca.
Fascistizaram a pátria com o veneno do ódio.
Envenenaram a vacina da confiança.
Leiloaram o pré-sal por um punhado de moedas sujas.
Transformaram a Amazônia em souvenir de destruição.
E entregaram o coração do Brasil a garimpeiros, milicianos, mercenários e moralistas de aplicativo.
Viramos a distopia tropical. A timeline errada.
Um país onde a camisa da Seleção virou uniforme de fanático.
Onde a bandeira foi sequestrada por lunáticos.
Onde o congresso virou show de horrores transmitido ao vivo.
Onde os livros são censurados, mas as armas circulam como água em torneira quebrada.
Eles podiam ter deixado o Brasil andar com as próprias pernas.
Mas preferiram cortar os tendões da democracia com o bisturi cego da ambição.
Hoje, pagamos a conta.
Não com boletos, mas com retrocesso.
Não com juros, mas com luto.
Não com silêncio, mas com gritos de quem perdeu pai, mãe, floresta, emprego, comida, futuro.
E tudo por quê?
Por um apetite insaciável de controle.
Por uma vaidade cega que confunde o país com um espelho.
Por uma elite que não sabe perder e prefere matar o jogo.
Ah, Brasil…
Se ao menos a nossa história fosse escrita por poetas, e não por canalhas.
Mas ainda há quem acredite que o sol nasce mesmo depois de noites sem fim.
Ainda há quem plante flores nos escombros.
Ainda há quem escreva, como eu, com raiva e ternura,
porque a palavra, ao contrário da mentira, nunca se aposenta.
E enquanto houver crônica, haverá denúncia.
Enquanto houver metáfora, haverá esperança disfarçada de ironia.
E enquanto houver memória, nem o golpe mais bem maquiado terá o direito de reescrever nosso futuro.
– Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
(Crônica escrita entre os escombros da lucidez e os vagalumes da utopia)




