CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
O dia 15 de abril amanheceu com gosto de chocolate de Dubai e cheiro de lixo não recolhido nas esquinas de Aracaju. O céu, indeciso entre ser azul ou metáfora, resolveu se esconder atrás de nuvens de poeira — não só aquelas que invadiram o Iraque, mas também as que turvam a nossa percepção da realidade. O Brasil acordou mais uma vez tropeçando em manchetes, como quem pisa em brinquedos espalhados pela sala.
Comecemos com a Fundação Renascer, que abriu concurso para agentes socioeducativos. Renascer é verbo bonito, mas no Brasil é quase ironia. A cada edital publicado, um sonho desempregado acende uma vela, faz promessas e estuda como se estudasse para entrar no céu. São 32 vagas, mas mais de 32 mil esperanças que se empilham nos guichês da fé. O salário? R$ 2.582,83 — o valor exato de uma cesta básica gourmet, se for em Dubai.
Enquanto isso, os garis da capital decidiram fazer greve parcial. Cansaram de varrer a sujeira da cidade sem que ninguém varresse a injustiça que os cerca. A empresa Renova parece ter renovado apenas o contrato, não as condições. E Aracaju amanhece com as calçadas enfeitadas de sacos pretos, como se o lixo fizesse parte do paisagismo urbano.
A vida, essa imprevisível roteirista de tragédias e ternuras, nos levou também a procuradora da República Aldirla Pereira de Albuquerque. Um silêncio jurídico cobriu o Ministério Público com luto e reverência. Partiu alguém que defendia a lei num país onde a injustiça muitas vezes escreve os autos. Que a justiça agora lhe seja eterna.
E como se o mundo já não estivesse suficientemente desconcertante, os semáforos da Califórnia resolveram virar programa de humor. Hackeados, passaram a falar com vozes de Musk e Zuckerberg, como se a travessia de uma avenida exigisse um bate-papo com os bilionários da Matrix. Que fase, hein? É o futuro chegando de patinete elétrico e conexão 5G, mas sem saber atravessar na faixa.
Falando em futuro, ele agora tem gosto: o chocolate de Dubai, mistura alquímica de pistache, tahine e likes. Uma grávida desejou, o mundo quis. A gula globalizada faz fila nas confeitarias e engole os estoques em minutos. Já não basta desejar um chocolate — é preciso ter rede social, tempo e sorte. Afinal, até os desejos agora são algoritmo-dependentes.
Enquanto isso, o governo Lula tenta regular as redes sociais. A proposta vem recheada com o recheio mais urgente: proteger nossas crianças dos abismos digitais. E isso, sim, é uma barra — daquelas que não se vende em supermercado e que não se derrete com calor humano, mas que precisa ser dividida com responsabilidade por todos. As big techs, que vendem sonhos e espalham pesadelos, precisam ser responsabilizadas. Porque criança não é dado, é vida em formação.
E no Oriente Médio, o céu decidiu protestar. Uma tempestade de areia varreu o Iraque e levou consigo o fôlego de milhares. 3.700 pessoas intoxicadas, hospitais em alerta, voos cancelados. Quando o próprio ar se revolta, é sinal de que o planeta está exalando seu cansaço. A Terra, sufocada, nos dá um alerta em forma de areia — o pó que viemos e ao qual voltaremos, caso não mudemos o rumo.
E assim, entre chocolates virais, concursos com gosto de esperança, e semáforos filosóficos, o Brasil e o mundo seguem em sua dança caótica. O lixo da injustiça segue se acumulando, mas há quem varra, quem lute, quem sonhe. Há quem renasça.
Que sigamos — com humor, com crítica, com poesia — cruzando as ruas da vida, mesmo que o semáforo diga “pare”, mas a esperança diga “siga”.




