CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de abril de 2025

Que o gás volte a cozinhar feijão e não esperanças. Que os muros caiam e as danças durem mais que os silêncios. E que a política, um dia, seja biblioteca — lugar de ideias e não de imunidades.

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de abril de 2025
Publicado em 10/04/2025 às 0:56

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


No Dia Nacional da Biblioteca, abrimos o livro do cotidiano e, entre páginas rasgadas de esperança e margens rabiscadas de desespero, mergulhamos nas notícias como quem folheia um diário de um mundo em agonia. Hoje, a leitura nos exigiu mais que óculos e concentração: foi preciso alma blindada e coração sem frescura.

Na Maternidade Lourdes Nogueira, o capítulo é de terror. Lá, a cegonha perdeu o rumo, tropeçou em contratos mal assinados, e pariu indignação. A inspeção virou ultrassom da verdade: equipamentos sucateados, lençóis da cor da vergonha, e promessas de gestão tão ocas quanto uma incubadora vazia. A maternidade, que deveria ser berço de vidas e esperanças, virou enredo de um parto sem anestesia para a dignidade. Nascer ali é mais um ato de resistência do que um direito. E ainda dizem que a saúde vai bem… Vai, sim: vai embora.

Enquanto isso, falsos profetas sociais batem às portas com promessas de Vale Gás, mas o que entregam mesmo é gás lacrimogêneo de ilusão. Usam crachás invisíveis e sorrisos ensaiados. Parecem agentes da assistência, mas são apenas trapaceiros do teatro da pobreza, vendendo esperança enlatada, com data vencida e lacre rompido. O povo, já tão enganado, agora tem que desconfiar até do que parece ajuda. E o CMais virou CMenos: menos confiança, menos segurança, menos respeito.

Nos EUA, Trump – sempre ele, o carteiro das crises – jogou mais lenha no fogaréu das tarifas. Subiu o tom contra a China como quem bate o pé na ONU de birra. A tarifa foi a 125%, e o dólar, coitado, caiu feito bêbado na ladeira. O Ibovespa, esse balé bipolar da economia, dançou forró de alegria. Mas até quando dura essa festa, se o DJ é Trump e o som é guerra comercial?

E o Brasil, como quem se enxerga no espelho pela metade, decidiu exigir visto dos turistas americanos, canadenses e australianos. Reciprocidade, dizem. Mas no fundo, é só um “toma que o filho é teu” diplomático. É justo, sim, mas não deixa de ser um retrato do mundo cada vez mais cercado de muros invisíveis — onde até as boas-vindas pedem senha.

Na Câmara, uma nova secretaria foi criada para proteger… os parlamentares. Não, não é piada. Enquanto a população leva tapa da inflação e rasteira da saúde, os deputados se protegem do que mais temem: a verdade e a justiça. Criam um escudo dourado com o nome pomposo de “imunidade parlamentar”, como se fossem super-heróis às avessas, lutando não contra o mal, mas contra o espelho.

E como cereja do bolo mofado, o hipócrita e canalha Conselho de Ética resolveu aprovar a cassação de Glauber Braga, aquele que chutou um militante do MBL pra fora da Câmara. Sim, ele chutou. Sim, há decoro a preservar. Mas… e os chutes invisíveis que tantos parlamentares dão diariamente na cara do povo? Esses continuam livres, leves e legislando.

Lá fora, no Caribe, a música parou. Uma discoteca desabou na República Dominicana e 124 almas agora dançam no silêncio do além. A busca cessou, mas a dor continua. As famílias esperam respostas que não virão, abraços que não voltam e promessas que, como sempre, não passam de pó entre os escombros.

Hoje, a crônica não teve final feliz. Foi poesia trincada, metáfora ferida, e ironia com gosto de lágrima. Mas há um fio de esperança, ainda que tênue, entre as estantes empoeiradas das bibliotecas deste país. Quem sabe, num livro esquecido, não encontremos o roteiro de um Brasil que ainda não foi escrito?

E que nunca mais uma criança tenha que nascer entre os escombros da negligência. Que o gás volte a cozinhar feijão e não esperanças. Que os muros caiam e as danças durem mais que os silêncios. E que a política, um dia, seja biblioteca — lugar de ideias e não de imunidades.

Porque o Brasil merece mais que capítulos tristes. Merece reescrever sua história. E, talvez, quem sabe, começar pela página em branco de amanhã.