CRÔNICA

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 06 de abril de 2025

Crônica do Professor Antônio Glauber sobre as notícias do dia 06 de abril de 2025
Publicado em 07/04/2025 às 6:02

Por Antônio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE

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No domingo, enquanto o céu de Japaratuba se vestia de silêncio e angústia, a BR-101 se transformou em grito. Era um asfalto em chamas de dor, onde o povo, em romaria de revolta, plantou barricadas de luto para sepultar mais um filho perdido — Wemisson, 22 primaveras interrompidas por uma abordagem que cheirava mais a bala do que a lei.

A cidade chorava. Não só chorava — clamava. E cada lágrima virava labareda. Era como se a terra tremesse sob os pés dos injustiçados, e o asfalto, indignado, se recusasse a deixar os pneus passarem. Ali, onde o Estado devia ser o escudo, foi o punho. E quando o protetor vira predador, o povo aprende a rugir com o coração na garganta.

Mas a morte de Wemisson não foi apenas mais uma tragédia isolada — foi o espelho rachado de um país que ainda tropeça nos escombros do preconceito e da truculência. A juventude continua a ser alvo no Brasil: alvos móveis de um sistema que mira e dispara no futuro.

Enquanto isso, a outra BR — a do Brasil — segue paralisada na encruzilhada da justiça. Uma pesquisa da Quaest revelou que 56% dos brasileiros ainda têm espinha dorsal ereta o suficiente para dizer: “os vândalos do 8 de janeiro não devem ser perdoados.” Ah, que refresco saber que a memória não foi apagada por fake news ou gospel golpista! Mas também dói ver os outros 34% que, talvez, ainda confundam patriotismo com a camiseta da seleção e democracia com a senha do Wi-Fi.

Em outro canto do palco, os americanos voltam a precisar de visto para entrar em nossas praias e nossos corações. Um gesto, dizem, de dignidade diplomática. O problema é que o orgulho nacional, às vezes, parece um pavão cego tentando impressionar o espelho. Afinal, de que adianta exigir visto se continuamos de joelhos para os aplicativos gringos, entregando dados, vidas e sonhos ao algoritmo colonizador?

Ah, e por falar em algoritmos, a Microsoft apagou as velinhas de seus 50 anos. A empresa que nasceu numa garagem — e virou um império — hoje dita o ritmo da nossa existência digital. Bill Gates, com seu jeitinho nerd de profeta high-tech, ergueu um reinado onde o Word é lei e o Excel é chicote. E nós, súditos conectados, assistimos à evolução da humanidade caber numa planilha, com alma formatada em .docx e esperança salva na nuvem.

Mas voltemos a Japaratuba, onde a realidade não tem atalho Ctrl+Z. Onde não há “salvar como”, nem “copiar e colar” uma nova vida para Wemisson. Lá, o protesto é poesia bruta, é verso quebrado, é samba desafinado na boca dos que nunca foram ouvidos. O povo bloqueou a estrada como quem fecha o peito e diz: “basta”. E que esse basta ecoe, como ecoam os tambores de revolta nos rincões onde a justiça chega atrasada, cansada e, muitas vezes, algemada.

Que não se esqueça: uma abordagem violenta não é protocolo, é patologia. E toda vez que um jovem cai, a democracia leva um tiro na espinha. Que essa crônica não seja só memória, mas semente. Porque Japaratuba não quer mais ser manchete de dor — quer ser manchete de justiça.

E se a Microsoft construiu um mundo virtual em meio século, será que a gente consegue, em meio século, construir um Brasil real — onde o jovem tenha futuro, onde o povo tenha voz, e onde a polícia proteja, sem precisar matar?

Oxalá.