CRÔNICA
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 04 de abril de 2025
Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE
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Era uma sexta-feira como qualquer outra, dessas em que o café da manhã ainda carrega o gosto amargo das manchetes. E, como em toda sexta que se preze, o noticiário amanheceu com as chagas abertas da realidade, clamando por curativos de metáforas, benzedeiras de poesia e um bocado de ironia bem temperada.
Na pacata Pirambu — terra de peixes, promessas e procissões — uma santa foi quebrada. Não uma qualquer: Nossa Senhora de Lourdes, aquela que intercede pelas dores do corpo e da alma, foi ferida enquanto dormia sob o céu de estrelas apagadas e postes intermitentes. Não foi trovão divino, nem terremoto da fé. Foi mão humana, desgovernada, que quebrou o que era sagrado. E, veja bem, quando a pedra é lançada contra a fé do povo, não é só a escultura que trinca — é o coração da comunidade que estilhaça em mil pedaços.
A polícia chegou tarde, como os pedidos de desculpa que não remendam mais o erro. O autor sumiu nas esquinas da impunidade, protegido pelo manto da escuridão e pela ausência de câmeras e caráter. Mas o rastro ficou: um altar vazio, uma indignação silenciosa, e o povo olhando para o céu, perguntando se até os santos estão sem proteção nesse país onde o crime é sempre mais ágil que a justiça.
E enquanto uma santa chorava em silêncio no chão de Pirambu, lá em Brasília, o governo acendia uma vela para os sem-teto. Lula, num gesto de pão multiplicado, estendeu o ‘Minha Casa, Minha Vida’ para quem ganha até R$ 12 mil. Eis que o barraco virou sonho de cobertura, e a classe média finalmente foi reconhecida como carente — de teto, de crédito, e de esperança. O povo, antes excluído do sorteio, agora entra na fila com mais fé do que nunca. Afinal, no Brasil, o “meu lar” ainda é uma loteria com prêmios escassos e juros altos.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, um venezuelano fez o que muitos políticos jamais fariam: ofereceu um pedaço de si. José Gregorio González, preso por não ter documentos, foi libertado por ter algo ainda mais valioso — um rim e um coração disposto a salvar o irmão doente. Uma história que mistura realismo mágico com drama judicial: libertaram o homem não pela sua liberdade, mas pela sua utilidade.
Ah, mundo estranho… Onde se prende quem ama e se solta quem rouba; onde a caridade vale menos que um carimbo, e a esperança, essa eterna imigrante, vive em risco de deportação.
Vivemos num tempo em que santos são quebrados, casas são prometidas em carnês e rins viram passaporte. É o século XXI, onde os milagres acontecem nos tribunais, os mártires nas manchetes, e os poetas se escondem atrás dos boletins de ocorrência.
Mas ainda assim, resistimos. Com metáforas nas mãos, ironia nos olhos e poesia nos bolsos, seguimos plantando esperança no asfalto quente das cidades. Porque mesmo quando quebram nossas santas, há sempre um povo que junta os cacos e reza mais forte.
E quem sabe, num desses dias, o milagre venha.
Não na forma de um castelo no céu, mas de uma casa com telhado, uma imagem restaurada, um rim doado e um futuro sem grades.
Amém.




