CRÔNICA

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 03 de abril de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 03 de abril de 2025
Publicado em 04/04/2025 às 0:47

Por Antonio Glauber Santana Ferreira – Japaratuba-SE


Na primeira luz do dia 3 de abril de 2025, o sol mal nasceu e já encontrou o Brasil com a alma em desalinho. A pátria-mãe gentil, com os cabelos revoltos pelo vento da corrupção e os olhos marejados de promessas não cumpridas, mais uma vez se viu diante do espelho trincado da própria realidade. E nesse espelho, refletiam-se notícias que mais pareciam capítulos de um romance policial surrealista com pitadas de comédia trágica.

Comecemos pela cena estrelada por um servidor do INSS — aquele que, em tese, deveria zelar pela velhice alheia —, mas que resolveu brincar de agiota em escala nacional. Sim, senhoras e senhores, o rapaz fez mais viagens que o Aleijadinho em suas esculturas barrocas: conseguiu fraudar nas 27 unidades da Federação! Um verdadeiro “mestre do saque”, literalmente. Enquanto aposentados esperam por benefícios que nunca chegam, ele se refestelava nos juros do cinismo e na taxa Selic da imoralidade.

E por falar em viagem, temos a estreia de uma nova empresa de ônibus em Aracaju. Não é piada! Os ônibus prometem ser jovens — só até 12 aninhos se forem a combustão, ou 15 se forem elétricos. O povo, que mal tem lugar para sentar, agora pode se contentar com a ilusão de andar em veículos “teen”. Ainda não inventaram ar-condicionado que combata o calor do aperto humano, mas ao menos o decreto promete que o cheiro de mofo será vintage, e não ancestral.

Já o concurso da PM-SE decidiu, com a delicadeza de um cabra macho revisitado, ouvir a Justiça e adaptar o TAF feminino. Que bom. Porque há tempos as mulheres correm da violência sem necessidade de cronômetro. Agora, ao menos, poderão correr pela farda com menos obstáculos e mais respeito. A Justiça, nesse caso, pegou a caneta e escreveu uma vírgula na frase de opressão.

No palco carioca, o Supremo resolveu fazer o papel de roteirista da realidade e estipulou um mínimo de dignidade para as operações policiais em favelas. Câmeras nos uniformes, autópsias obrigatórias — parece pouco diante das vidas apagadas como rabiscos num caderno velho, mas é o que se tem por enquanto. A favela agradece, com um pé na esperança e outro no medo. Afinal, no Brasil, até a justiça anda de colete à prova de balas.

E no exterior, o Pentágono — esse deus de chumbo dos Estados Unidos — resolveu investigar um secretário de Trump que andou usando app secreto pra planejar bombardeios. Mas o melhor (ou pior) é que um jornalista caiu por engano no grupo do zap do Apocalipse. Um grupo que, em vez de figurinhas de bom dia, compartilhava alvos. O erro foi humano, a tragédia é geopolítica.

Não bastasse isso, a ABIN resolveu brincar de James Bond em solo paraguaio. Espionagem de novela de quinta: invadiram sistemas atrás de segredos sobre Itaipu, como quem abre a geladeira alheia procurando o pedaço de bolo escondido. O Paraguai reagiu com indignação, enquanto o Brasil finge que tropeçou sem querer no firewall vizinho.

Eis o Brasil do dia 3 de abril de 2025: um mosaico de absurdos montado com as peças da rotina. Um país que dança a marcha da insensatez com passos de samba, frevo e rap — tudo ao mesmo tempo. Um lugar onde até a esperança, coitada, vive pedindo auxílio-doença.

Mas a poesia insiste, mesmo entre ruínas. Porque ser brasileiro é isso: rir com os olhos marejados, protestar com as cores do carnaval, e amar essa pátria, mesmo quando ela nos fere com boletos e balas perdidas. Seguimos. Porque desistir seria assinar embaixo do erro. E a gente ainda acredita na reescrita.

Enquanto isso, o servidor do INSS que rodou o país falsificando aposentadorias talvez nem saiba que o maior golpe é tirar do povo a fé de que o Brasil pode dar certo.

Mas pode. Um dia. Nem que seja depois do ponto final de milhares de crônicas.


Crônica escrita por Antônio Glauber Santana Ferreira
Professor, cronista e teimoso apaixonado pela utopia de um Brasil mais justo.